Mulherez de Voz: Edwik, minha Divica
O silêncio das histórias não contadas.
Edwik, este é o nome da minha avó materna, que sempre chamei de vó Divica. Acho que para uma criança nascida e criada na capital nunca deve ter sido fácil, ou pelo menos devem ter tentado me ensinar o nome dela. O que mais lembro eram das intermináveis horas de viagem no fusca, que saia de Porto Alegre em direção ao Morro Redondo para visitar a família do meu Pai.
Quando lembro das minhas duas avós, penso nas histórias não contadas, no quanto minha vida seria mais rica se eu tivesse convivido mais, se tivesse tido a oportunidade de ser adulta, sentar com elas e ouvir seus relatos. É a saudade de tudo que não vivi, que acredito que algumas pessoas sentem. São as histórias que construo com fragmentos de memórias e de momentos que estive com essas mulheres.
Falar da vó Divica é ainda mais difícil, porque eu tenho boas lembranças, de cozinha gostosa, de pão com banha e torresmo, de rapadura de amendoim, de massa com muito óleo e de bolo de batata ralada na cozinha com fogão à lenha sempre acesso, cheiro de café e da linguiça mais gostosa que eu já comi, em uma pequena propriedade rural no Município de Morro Redondo.
Eram horas de viajem, com três crianças cantando e muitas vezes brigando no banco de trás, que achavam maravilhoso andar na estrada de chão, e ao sair da avenida principal, pegar um estreito caminho entre árvores, escuro e muitas histórias assombradas para chegar na casa da vó. Lá ela morava com a filha, irmã do meu Pai, o genro e duas netas, que já eram mocinhas quando eu era criança.
Tínhamos menos contato com a família do meu Pai do que com a família da minha mãe. Eu acreditava que era pelos quilômetros de distância entre Porto Alegre e Morro Redondo, mas logo percebi que não era só isso. Havia um abismo cultural ou social, ou étnico, ou tudo isso, entre minha avó e minha mãe. A vó Divica era filha de imigrantes alemães e pelo que conta minha mãe, meu pai foi o primeiro na família a casar com uma “brasileira”, que para piorar, usava cabelo curto e colorido, muita maquiagem e vestia mini saia. Nem imagino como essa dinâmica acontecia, eu nunca vi nenhuma briga, mas ouvi muitas fofocas.
Lembro de ver minha avó e minha tia conversando em Pomerano na frente da minha mãe, e ela ficava furiosa, dizia que estavam falando dela. Minha avó faleceu quando eu tinha 14 anos e depois disso, quando viemos morar em Pelotas, minha tia e minha mãe começaram a ter uma boa relação, que durou até quando minha tia faleceu.
E o que quero contar aqui? Que eu era a Fapiana, era mais ou menos assim que saia meu nome com o sotaque da minha avó. Sempre me senti muito amada por ela, embora ela não fosse uma mulher afetuosa, de dar colo ou carinho como a Tete. Mas eu sempre percebi que a linguiça e as rapaduras de amendoim eram a forma de dar afeto. Assim como a paciência de me acordar de madrugada e tentar me ensinar a tirar leite da vaca, de mostrar como fazia o queijo, a linguiça e tudo que produziam para o próprio sustento.
A vó Divica ficou viúva muito cedo, quando meu avó faleceu, meu pai era muito jovem, tinha ingressado na Brigada e já estava mais afastado do convívio. Hoje sei que o marido da minha tia foi quem fez com que as coisas continuassem funcionando, foram eles que estiveram sempre com a vó. Embora, todos sempre tenham comentado do quando difícil era conviver com a autoridade dela.
Confesso que nunca vi esta mulher. Que o que eu via era uma mesa gostosa e farta quando chegávamos, a função de matar um porco e fazer linguiça, de levantar para tirar leite, fazer nata e queijo, do mate lavado o dia inteiro com o fogão ligado, da vida, que era completamente diferente da que vivíamos na cidade. E quando falo de diferente, falo de boas lembranças de uma infância que fora disso era bem complicada.
Parando para pensar agora, do tempo que vivemos em Porto Alegre, da primeira casa que moramos na Glória, a melhor lembrança que tenho é de uma mesa cheia de canudinhos e a vó Divica sentada em uma cadeira na ponta, o que foi registrado em uma foto dos preparativos do aniversário de 1 aninho do meu irmão e consequentemente dos meus 3 anos. As demais lembranças, a memória me poupou, exceto a primeira delas que até hoje nunca tive vontade ou coragem de contar.
Porque estou dizendo isso, porque do convívio com esta avó, tenho só boas lembranças, bons momentos, histórias de assombração, passeios em carroça levando soro de leite, passando por pequenos riachos e gerando uma enorme aventura. Lembrança do Fred, um porco reprodutor, muito agressivo, que qando fugia todo mundo tinha que correr para casa e uma vez meu tio ficou a tarde inteira na carroça no pátio, enquanto observávamos dando risadas pela janela.
A história dessa mulher, eu só posso imaginar. De como ela casou cedo, teve filhos cedo, ficou viúva jovem. E a vida? Os sonhos, os medos, como foi? Não sei! Sinto saudade do que não pude viver e me preencho das histórias de todas as mulheres que passam pelo Mulheres de Voz para que um dia alguém não sinta isso. Para que sejamos lembradas pela nossa Voz e não pelas fofocas da espuma superficial que encobre o oceano de cada existência.
Se de um lado da minha história tudo é barulho, com a vó Divica penso que aprendi o silêncio, o silêncio de uma vida que precisa ser sentida e nem sempre gritada, do silêncio que por vezes guarda dor, outras guarda amor, e outras proporciona paz. Ontem quando uma mulher que admiro muito me disse que eu sou leve, ela me inspirou a escrever isso hoje. A pensar em como cheguei aqui neste exercício diário de ser o melhor que eu consigo à partir das experiências que me constroem.
Obrigada vó, até um dia!
Fabiana D'Yemoja

Apresentadora
Colunista
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