Anitta é alvo de racismo religioso após apresentação no Domingão com Huck
Episódio expõe intolerância recorrente no País, mas nem sempre foi assim! O que mudou?
A apresentação de Anitta no Domingão com Huck, exibido pela TV Globo no domingo de Páscoa, reacendeu o debate — sobre intolerância religiosa e racismo cultural no Brasil. Após subir ao palco com uma performance que incorporava elementos de espiritualidade de Matriz Africana, a artista foi alvo de uma onda de ataques nas redes sociais, muitos deles carregados de preconceito e desinformação.
A reação negativa, no entanto, está longe de ser um caso isolado. Ao contrário, revela um padrão histórico de rejeição a manifestações culturais que dialogam com religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda. A presença desses elementos na música popular brasileira não é novidade — nem exceção. A música brasileira nasce nos Terreiros de Umbanda e Candomblé.
O episódio expõe a intolerância recorrente no País atualmente, mas nem sempre foi assim, artistas consagrados já trilharam esse caminho muito antes de Anitta.

Clara Nunes - Deusa dos Órixas - Musical do Fantástico
Clara Nunes, por exemplo, construiu uma carreira marcada pela valorização das tradições afro-brasileiras, com canções que reverenciam Orixás e celebram a ancestralidade, como "Deusa dos Órixas" do álbum Claridade de 1975. Da mesma forma, Ronnie Von, em 1972, gravou “Cavaleiro de Aruanda” uma das músicas com referências mais marcantes sobre a Umbanda, incluindo elementos místicos e religiosos que dialogavam com diferentes crenças — sem que isso gerasse o mesmo nível de hostilidade visto hoje. Podemos ainda citar Martinho da Vila, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Elis Regina, Vinícius de Moraes, Toquinho e uma infinidade de tantos nomes gigantescos da MPB.

Ronnie Von (1972)
O contraste revela mais sobre o tempo presente do que sobre as obras em si. Em um cenário de crescente polarização e avanço de discursos conservadores, manifestações culturais ligadas à diversidade religiosa passam a ser alvo frequente de ataques. Quando essas expressões partem de uma artista popular, feminina e com grande alcance como Anitta, o impacto e a repercussão tendem a ser ainda maiores.
Além disso, o episódio levanta uma discussão sobre seletividade: por que determinadas referências religiosas são aceitas enquanto outras são demonizadas? A resposta passa, inevitavelmente, por questões estruturais, como o racismo religioso — fenômeno que atinge diretamente Religiões de Matriz Africana e seus símbolos.
A trajetória da música brasileira mostra que o diálogo com a espiritualidade sempre esteve presente — seja no Samba, na MPB ou até no Rock. O que muda, ao longo do tempo, é a forma como a sociedade reage a essas expressões. E, nesse sentido, o caso recente envolvendo Anitta evidencia que ainda há um longo caminho a ser percorrido no combate à intolerância.
Mais do que uma polêmica passageira, o episódio escancara uma ferida antiga: a dificuldade de reconhecer, respeitar e valorizar a diversidade cultural e religiosa que forma a identidade do Brasil. Quando a música é de PRETO a branquitude faz cara feia.
Axé!
Jeff Soares

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