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O Silêncio dos Homens e a Lei da Misoginia: Por que o medo deles nos revela tanto?

[...] essa postura é confessional: ela revela a incapacidade de muitos em distinguir convivência profissional de assédio.

O Silêncio dos Homens e a Lei da Misoginia: Por que o medo deles nos revela tanto?
Imagem Chat Gpt

Em março de 2026, o Senado deu um passo decisivo com a aprovação do Projeto de Lei 896/2023, que criminaliza a misoginia: o ódio, desprezo ou aversão às mulheres, equiparando-a ao crime de racismo. Como mulher, vejo esse avanço legislativo (somado ao PL 4266/23, que torna a misoginia um agravante e o feminicídio um crime autônomo) como uma resposta necessária a uma violência que tenta nos silenciar há séculos. No entanto, o que mais me chama a atenção não é apenas a letra da lei, mas a reação dos homens a ela.


Tenho observado homens manifestarem um suposto "medo" de interagir com mulheres, alegando que "não se pode mais ficar em uma sala com uma colega". Para mim, essa postura é confessional: ela revela a incapacidade de muitos em distinguir convivência profissional de assédio. Se o comportamento de um homem é pautado no respeito, a lei nunca será uma ameaça.


O machismo que enfrento diariamente é estrutural. Ele se esconde nas "piadinhas", no manterrupting (quando somos interrompidas constantemente) e naquela objetificação disfarçada de elogio que nos causa desconforto, mas que ainda somos pressionadas a aceitar com um sorriso.


Também é exaustivo ouvir homens evocarem a misandria, ou seja, o ódio, desprezo, preconceito ou aversão sistemática contra homens ou meninos, como se fosse um contraponto equivalente à nossa luta. É preciso ser direta: sociológica e historicamente, elas não têm o mesmo peso.


Recuso o discurso de ódio aos homens; minha luta é por transformação, não por revanchismo. Tenho um filho e foco minha educação em uma masculinidade saudável. O fato de ele ter brincado com bonecas na infância reflete hoje em sua capacidade ímpar de cuidar de crianças mais novas. É cansativo ver homens evocarem a misandria para tentar silenciar pautas feministas. Não há equivalência entre o preconceito individual e a opressão histórica que combatemos.


Não existe, e nunca existiu, um sistema político ou econômico mundial desenhado para oprimir homens pelo simples fato de serem homens.


O processo de "reaprender" a masculinidade mais saudável, do qual tanto falamos, exige que os homens entendam que o nosso respeito não é uma concessão deles, mas um direito básico.


Se um homem tem medo de elogiar e ser punido, ele deveria questionar a natureza do seu comentário. Um elogio respeitoso foca na competência e na pessoa; se o foco é o corpo em um contexto inapropriado, não é elogio, é invasão.


Observo que o silêncio deles é, muitas vezes, cúmplice. A lei não veio para proibir a convivência entre os gêneros, mas para demarcar que o meu corpo e a minha existência não são territórios de livre acesso ou de escárnio. A resistência masculina a esses avanços geralmente mascara uma enorme dificuldade de se relacionar conosco de forma horizontal, sem a proteção do poder sobre nós.


O desafio atual é pedagógico e urgente: precisamos educar para uma sociedade onde a masculinidade não precise do domínio para se afirmar. O silêncio deles precisa acabar para que a nossa voz possa, enfim, ser ouvida sem interrupções.






Roberta Luzzardi


Educadora. Defensora da Agroecologia,

do Feminismo Interseccional e da Escola Pública.

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