cover
Tocando Agora:

Escolhas - A Liberdade de Partir

Quando Ser Útil Não É o Mesmo que Ser Importante

Escolhas - A Liberdade de Partir
Imagem Internet/Pixabay

Houve momentos silenciosos — quase imperceptíveis — em que um percebi que companhias que me cercavam não eram presença, era conveniência. Não há confronto, não há explosão. Não quero. Trata-se apenas de um acúmulo de ausências disfarçadas de encontros, de conversas onde nunca me escutaram, de mãos estendidas apenas quando precisavam segurar algo — nunca oferecer.


E então vem a escolha. E como é difícil mudar.


Caminhar sozinho não é, como muitos pensam, um ato de solidão, tampouco, egoísmo. É um ato de lucidez. Porque permanecer ao lado de quem só aparece na escassez é, na verdade, a forma mais cruel de abandono: estar cercado e ainda assim não ser visto. Há uma exaustão profunda em mim em ser sempre o porto, nunca o destino. Em ser lembrado apenas como solução, nunca como companhia.


Quando esse homem que fui decidiu partir, não significou rejeitar pessoas — estou recusando os papéis que nunca escolhi. Deixo para trás a obrigação de ser útil para poder, finalmente, ser inteiro. E isso dói. Dói porque junto com essas pessoas vão embora também as expectativas, as versões de mim mesmo que sustentei por tanto tempo para estar ali junto a eles em qualquer situação. Há um luto em mim: não apenas pelos outros, mas pelo que acreditei que aquelas relações poderiam ser.


Mas existe algo poderoso nesse caminhar solitário.


No silêncio dos próprios passos, começo a me ouvir. Sem o ruído das demandas alheias, descubro o que desejo de fato, o que tolero, o que nunca mais aceitarei. Aprendi que presença de verdade não pesa, não cobra, não aparece só quando convém. E, sobretudo, entende que sua companhia precisa ser suficiente antes de qualquer coisa.


Porque há uma diferença essencial entre estar sozinho e estar mal acompanhado. Um esvazia. O outro, paradoxalmente, preenche — de verdade, de autonomia, de dignidade. E dessas relações tenho poucas, talvez elas não encham um das mãos se for contar nos dedos.


E talvez, no fim, essa caminhada não seja sobre se afastar dos outros, mas sobre se aproximar de mim mesmo. Sobre reconstruir o próprio valor longe dos olhares que só enxergavam utilidade. Sobre aprender que quem permanece deve fazê-lo por escolha — não por necessidade.


Caminhar sozinho, então, deixa de ser perda. Passa a ser libertador.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

Comentários (0)