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Tia Ciata: A Força Ancestral Que Ajudou A Moldar O Samba e a Identidade Cultural Brasileira

Ela foi protagonista!

Tia Ciata: A Força Ancestral Que Ajudou A Moldar O Samba e a Identidade Cultural Brasileira
Espaço cultural Casa da Tia Ciata | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Falar da história do samba sem mencionar Tia Ciata é, no mínimo, contar apenas metade da história. Muito além de uma figura folclórica ou de bastidores, ela foi protagonista na construção de um dos maiores símbolos culturais do Brasil — um gênero musical que hoje representa resistência, identidade e memória coletiva.


Nascida como Hilária Batista de Almeida, em 1854, na Bahia, Tia Ciata carregava consigo as tradições do Recôncavo Baiano, profundamente marcadas pela cultura afro-brasileira, pelo candomblé onde foi iniciada sendo filha de Oxum e pelas manifestações populares. Ao se mudar para o Rio de Janeiro no fim do século XIX, estabeleceu-se na região da Pequena África, na zona portuária — um território pulsante de cultura negra, que reunia ex-escravizados, trabalhadores e migrantes nordestinos.


Sua casa, localizada na Praça Onze, tornou-se um verdadeiro quilombo urbano. Era ali que músicos, compositores e sambistas se encontravam para tocar, criar e, sobretudo, resistir. Em um período em que manifestações culturais negras eram criminalizadas e perseguidas pela polícia, Tia Ciata oferecia não apenas abrigo físico, mas também proteção simbólica e espiritual.


Entre os frequentadores de sua casa estavam nomes fundamentais como Donga, Pixinguinha e João da Baiana — figuras que ajudariam a consolidar o samba como gênero musical. Foi nesse ambiente que nasceu “Pelo Telefone”, considerada a primeira música de Samba gravada no Brasil, em 1917, com autoria registrada por Donga, mas construída coletivamente naquele espaço de convivência.


Tia Ciata


Mais do que uma anfitriã, Tia Ciata era uma liderança. Sacerdotisa do candomblé, doceira renomada e mulher de forte presença política e social, ela articulava estratégias para driblar a repressão policial: Naquela época, as reuniões de samba eram estritamente proibidas pela polícia. Entretanto, para os encontros na residência de Tia Ciata, as autoridades fechavam os olhos, em virtude da sua reputação como curadora. Registros contam que Tia Ciata teria providenciado o tratamento de uma ferida na perna do presidente Venceslau Brás, o qual, em agradecimento, atendeu ao seu pedido para garantir os encontros e um emprego para o seu esposo: uma posição no gabinete do chefe de polícia.


Seu papel também escancara uma realidade muitas vezes apagada: o protagonismo das mulheres negras na construção da cultura brasileira. Em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural e pelo patriarcado, Tia Ciata não apenas ocupou espaços — ela os criou.


A influência de Tia Ciata atravessa o tempo. Seu legado ecoa nas escolas de samba, nos terreiros, nas rodas de bairro e nos grandes palcos. Ela não apenas ajudou a inventar o samba — ajudou a garantir que ele sobrevivesse, florescesse e se tornasse um dos maiores patrimônios culturais do país.


Hoje, reconhecer sua importância é também um ato de reparação histórica. É entender que o samba, antes de ser indústria ou espetáculo, foi resistência, foi refúgio, foi estratégia de sobrevivência — e teve em Tia Ciata uma de suas maiores guardiãs. Porque, no fundo, contar a história do samba é, inevitavelmente, contar a história de Tia Ciata.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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