Ensaio sobre estar viva #7 - Amizade na Vida Adulta
[...] a gente precisa de relações que acompanhem esse movimento, e não que nos aprisionem em versões antigas.
Eu venho cortando homens da minha vida. Pai, irmãos, tios, primos, amigos e até namorado. Não significa que eu tô excluindo eles da minha vida, significa que eu não os considero a cada pensamento que tenho.
Pra alguns isso parece óbvio, mas eu cresci sem mãe, então fui rodeada de homens a vida toda, refém da maldade de gente boa, como diria Chico. E isso marca mais do que eu gosto de admitir, porque não é sobre violência explícita o tempo todo, é uma ausência, negligência emocional, coisas que parecem pequenas, mas que foram moldando o jeito que eu entendi o mundo e a mim mesma.
Não acredito que todos os homens sejam ruins, mas acredito que muitos sabem que têm uma licença poética pra serem, e isso, muitas vezes, vira pretexto. Pretexto pra não se responsabilizar, pra não amadurecer, pra não olhar pra própria sombra. Desde que eu resolvi fazer essas mudanças, me vi sem ninguém. E entendi o peso disso. O peso dessa ausência de rede feminina, de entendimento e conexão. E isso não é só sobre mera companhia, é identificação.
Na terapia, ouvi que eu precisava de uma rede feminina. E eu fiquei uma semana me perguntando: como faz isso? Como que se constrói algo que nunca foi ensinado? Eu chego e pergunto “oi, quer ser minha amiga?” Bom, aparentemente, é assim sim. Simples num nível tão grande que a gente desaprendeu.
Da infância à vida adulta, poucas coisas mudam. A gente é que inventa moda e vai dificultando as coisas, criando camadas de defesa, orgulho, medo de rejeição. Mas, no fundo, ainda é sobre estender a mão e ver se alguém segura. Eu não sou o tipo de pessoa que reclama de solitude, mas eu reclamo da solidão. Solitude é a presença de si mesma, e isso eu tenho. Eu me sustento, me escuto, me acolho. Mas a solidão é a ausência do outro. E por mais que a gente romantize a independência, ninguém é inteira sozinha o tempo todo.
Ano passado, escrevi o “Cartas Para Elas”, onde eu me comunicava especificamente com pessoas que se identificavam como mulheres. Mas hoje eu falo com quem se identifica como gente. Seres humanos, falhos, frágeis e carentes. Porque, no fim, é isso que a gente é quando tira todas as camadas. A gente precisa de uma rede de afeto. Ter um abraço pra onde correr quando a vida adulta pesa, mas um abraço que conheça a tua versão atual. Que não te trate como quem tu foi, mas como quem tu é agora.
E isso só uma amizade constituída na vida adulta é capaz de fazer com mais consciência. Não significa que a gente não muda na vida adulta, pelo contrário. Significa que, justamente por mudar, a gente precisa de relações que acompanhem esse movimento, e não que nos aprisionem em versões antigas.
Existem conexões que despertam coisas em nós que eram pra estar mortas. Padrões, dores, versões que a gente já superou ou está tentando superar. E isso é difícil de aceitar, porque às vezes vem de pessoas que a gente ama. Portanto, é difícil de fazer valer. Cortar da nossa vida pessoas que acham que sabem quem a gente é, quando nem a gente sabe. E talvez esse seja o ponto mais honesto de todos até aqui: a gente ainda tá se descobrindo. Então por que entregar essa definição na mão do outro?
A gente precisa parar de dar esse poder ao outro, quando nem a gente tem. Identidade não é algo fixo, é um processo (olá Jung) e quem não aceita isso, inevitavelmente tenta te encaixar em algo que já não te cabe mais. O fluxo da vida só acontece com espaço. Não tem como o novo entrar se o velho ocupa tudo. Organize tua vida - emocionalmente, energeticamente, fisicamente - porque isso abre espaço. E espaço, no começo, parece vazio, mas depois, vira possibilidade.
Mas fica a dica: não abre espaço olhando só pro que tu não quer mais, pela falta. Isso aprisiona também. Abre espaço a partir do que tu quer manter, do que faz sentido, do que te nutre. Porque quando tu fortalece o que é vivo, o que não é naturalmente cai. Naturalmente, o joio se separa do trigo.
Amanda Beatrice

Apresentadora
Colunista
Oraculista
Mãe
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