cover
Tocando Agora:

Ritchie Blackmore - 81 Anos

O arquiteto da tensão, o herege do Rock e o eterno inconformado!

Ritchie Blackmore - 81 Anos
Foto Divulgação

Celebrar na última terça feira, os 81 anos de Ritchie Blackmore não é apenas reverenciar um virtuose — é revisitar uma mente inquieta que ajudou a redefinir os limites do Rock. Blackmore nunca foi apenas “mais um grande guitarrista”: ele sempre operou como um elemento de ruptura, alguém que tensionava o som, a dinâmica das bandas e até a própria ideia de carreira.


Muito antes de incendiar palcos, Blackmore era um músico de estúdio meticuloso na Inglaterra dos anos 1960. Trabalhou com produtores exigentes e absorveu uma ética quase rígida de execução: tocar certo, com precisão, e entender o instrumento além do improviso fácil. Essa base técnica — somada à sua obsessão por música clássica — moldou o que viria depois. Ao contrário de muitos guitarristas da época, que orbitavam o blues, Blackmore buscava em Bach e Beethoven estruturas, tensões harmônicas e dramaticidade. Isso explica por que, mesmo em contextos pesados, seu fraseado sempre soou “narrativo”, quase como se cada solo fosse uma pequena peça erudita em conflito.


Deep Purple: Conflito como Combustível Criativo

Foi com o Deep Purple que Blackmore encontrou o ambiente ideal — e ao mesmo tempo explosivo — para desenvolver sua identidade. A chamada “Mark II”, com Ian Gillan, Roger Glover, Ian Paice e Jon Lord, não era apenas uma banda: era um campo de forças.


A disputa musical entre a guitarra de Blackmore e o órgão de Jon Lord virou uma assinatura sonora. Não se tratava de acompanhar — era confronto. Essa tensão ajudou a criar músicas que não eram lineares, mas sim construídas sobre choques de intensidade e dinâmica. “Smoke on the Water” pode ser o exemplo mais popular, mas reduzir Blackmore a esse riff é ignorar sua complexidade. Faixas como “Child in Time” mostram sua habilidade de construir climas, controlar o silêncio e explodir no momento certo. Ele entendia algo essencial: peso não é volume, é intenção.


Mas o mesmo temperamento que gerava genialidade também causava rupturas. Blackmore nunca foi um músico fácil — seu perfeccionismo e sua personalidade reclusa criaram atritos constantes. E, no auge, ele fez o que poucos teriam coragem: saiu.




Rainbow: Fantasia, Poder e Controle Absoluto

Em 1975, nasceu o Rainbow — não apenas uma nova banda, mas um projeto sob total controle criativo de Blackmore. Ao lado de Ronnie James Dio, ele mergulhou em uma estética épica, quase mitológica, que viria a influenciar diretamente o power metal anos depois.


Aqui, sua veia neoclássica floresce de vez. Escalas exóticas, harmonias dramáticas e uma teatralidade que transformava o som em narrativa. Blackmore não queria apenas tocar — queria construir universos. Mas, novamente, sua inquietação falou mais alto. Mudanças constantes de formação e direção musical marcaram o Rainbow. Ele buscava algo que, talvez, nunca fosse plenamente alcançável: o equilíbrio entre controle absoluto e liberdade criativa.




Blackmore’s Night: O Rompimento Com o Próprio Legado

Nos anos 1990, quando muitos esperavam que ele consolidasse seu status dentro do hard rock, Blackmore faz um movimento radical: abandona o peso e funda o Blackmore's Night com Candice Night, sua esposa.


Para muitos fãs, foi um choque — quase uma traição. Mas, olhando com atenção, era o passo mais coerente de sua carreira. Ele apenas levou ao extremo algo que sempre esteve ali: sua paixão por música antiga, melodias folclóricas e estruturas renascentistas. Sem amplificadores estridentes, sem disputas de ego, Blackmore encontrou um espaço onde a música respira de outra forma. E, talvez pela primeira vez, sem a pressão de corresponder a expectativas externas.




Técnica, Som e Identidade

Falar de Blackmore também é falar de sua abordagem única do instrumento. Seu uso da alavanca, o vibrato agressivo, os bends precisos e o fraseado econômico criaram um estilo imediatamente reconhecível. Ele nunca foi um “exibicionista técnico” no sentido moderno. Sua técnica sempre serviu à construção de tensão. Em vez de preencher todos os espaços, ele sabia quando deixar o silêncio trabalhar — algo que muitos guitarristas virtuosos ignoram.


Um Legado Que Não Pede Aprovação

Aos 81 anos, Ritchie Blackmore permanece uma figura quase paradoxal. É reverenciado como um dos maiores guitarristas da história, mas nunca pareceu interessado em agradar o público ou a indústria. Enquanto muitos artistas constroem carreiras baseadas em repetição e nostalgia, Blackmore construiu a sua sobre à ruptura. Ele saiu de bandas no auge, mudou radicalmente de estilo e recusou o papel confortável de “lenda viva previsível”.


Seu legado não está apenas nos riffs ou nas músicas — está na postura. Na recusa em se acomodar. Na insistência em seguir a própria intuição, mesmo que isso custe popularidade. Ritchie Blackmore não apenas atravessou gerações. Ele desafiou cada uma delas a ouvir — e pensar — de forma diferente.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

Comentários (0)