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Nós, Mulheres, e a Revolução do Cuidado Coletivo

[...] Precisamos migrar da "rotina de beleza" para a "rede de sustentação".

Nós, Mulheres, e a Revolução do Cuidado Coletivo
Imagem Chat Gpt

Nos últimos anos, fomos inundadas por uma estética específica de bemestar. Nas redes sociais, a hashtag #selfcare acumulou milhões de publicações exibindo rotinas de dez passos de skincare, banhos de imersão e velas perfumadas. No entanto, por trás da superfície iluminada por sérums e máscaras faciais, esconde-se uma pergunta incômoda: por que, apesar de estarmos cuidando tanto de nós mesmos, nunca estivemos tão exaustas?


A resposta pode estar na natureza solitária desse cuidado. Estamos vivendo a transição necessária da ideia de autocuidado individualista para a potência do cuidado coletivo ou, como ensina a tradição afrodiaspórica, para a prática do aquilombamento.


Não há nada intrinsecamente errado em cuidar da pele ou buscar momentos de relaxamento. O problema surge quando o sistema capitalista coopta o conceito de cuidado, transformando-o em um produto de prateleira. O "autocuidado" tornou-se uma tarefa de performance, onde a responsabilidade pelo bem-estar recai inteiramente sobre o indivíduo.


Nesse modelo, se você está sofrendo com o esgotamento ou a ansiedade, a solução proposta é sempre individual: compre este creme, faça este curso, medite sozinha. Essa abordagem ignora que grande parte das nossas dores são estruturais. Um óleo essencial pode aliviar um sintoma, mas não cura as feridas causadas pelo racismo, pelo machismo ou pela precarização do trabalho. O autocuidado individualista é, muitas vezes, uma forma de nos manter funcionais para continuar produzindo, sem questionar o que nos adoece.


Em contrapartida à solidão do espelho, surge o conceito de aquilombamento. Fundamentado no pensamento de intelectuais como Beatriz Nascimento e Abdias do Nascimento, o quilombo deixa de ser apenas um lugar geográfico histórico para se tornar uma tecnologia de sobrevivência contemporânea.


Aquilombar-se é o ato de criar redes de afeto, segurança e sustento mútuo. Enquanto o skincare foca na preservação da imagem, o aquilombamento foca na preservação da vida. É o reconhecimento de que corpos que enfrentam opressões sistêmicas não podem (e não devem) tentar se curar sozinhos. Nas redes de cuidado coletivo, a vulnerabilidade não é uma falha, mas o ponto de conexão que permite que a rede se ative.


Precisamos migrar da "rotina de beleza" para a "rede de sustentação". O tal skincare pode até ser um carinho necessário com o corpo que habitamos, mas ele é insuficiente para a longevidade emocional em um mundo exaustivo.


A verdadeira revolução do bem-estar não acontece na frente do espelho, mas nos encontros. Acontece quando percebemos que o meu bem-estar é indissociável do seu. Transicionar para o cuidado coletivo é entender que a cura é, acima de tudo, um projeto político e relacional. Afinal, como ensinam os saberes ancestrais, eu sou porque nós somos. E é no abraço da rede que o cansaço finalmente encontra descanso.







Roberta Luzzardi


Educadora. Defensora do Feminismo Interseccional,

da Agroecologia e da Escola Pública.

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