Crônica: Quando As Pessoas Me Subestimam
[...] ainda está processando a versão antiga de mim, a versão que ela achou que eu deveria ter...
Existe um tipo muito específico de olhar que eu reconheço de longe. Não é raiva, não é desprezo declarado. É pior: é aquele olhar meio torto, com uma sobrancelha levemente levantada, como quem pensa “tá bom… vamos ver até onde isso vai”. Pronto. Fui oficialmente subestimado.
Curiosamente, isso costuma acontecer nos momentos que vão dos mais importantes aos mais aleatórios. Tipo quando eu digo que sei cozinhar. A pessoa me olha como se eu tivesse acabado de afirmar que fui assistente secreto da Paola Carossella. “Você? Cozinhar?” — ela pergunta, com um sorriso educado que claramente não acredita nem no próprio nome. E eu, muito tranquilo, respondo: “Sim, faço uma lasanha muito boa”. Muito boa, veja bem. Não disse revolucionária, não disse digna de reality show. Respeitável. Mas, na cabeça da pessoa, eu já estou “me achando”.
Outro clássico é quando eu menciono que sou músico, que sou cantor. Outro dia, numa conversa, soltei um comentário sobre técnica vocal. Nada muito profundo, coisa básica. A pessoa me interrompeu com um “nossa, desde quando você entende disso?” naquele tom que mistura surpresa com leve decepção, como se eu tivesse invadido uma área VIP do pensamento humano sem credencial. Eu quase respondi: “Desde que inventaram as aulas de canto”, mas preferi manter a elegância, graças as dicas da minha amiga, Márcia Alves. Respondi fazendo o exercício para exemplificar.
O mais curioso é que a subestimação vem sempre acompanhada de uma expectativa baixíssima — o que, sejamos honestos, é uma vantagem estratégica maravilhosa. Porque qualquer coisa que eu faça acima do mínimo vira espetáculo. Se eu apresento meu programa de rádio: “Nossa, não sabia que você tinha essa voz de locutor!”. Se eu faço algo bem-feito? “Caramba, não sabia que você era capaz!”. Capaz… CAPAZ? Como se até ontem eu estivesse tentando comer sopa com garfo e faca.
É nesse momento que eu começo a gostar da situação. Porque ser subestimado é tipo jogar videogame no modo fácil, só que sem ninguém perceber. Você entrega o básico e já ganha aplauso. Se fizer um pouquinho a mais, vira quase um milagre documentado. Claro, há um limite. Porque ninguém quer ser visto eternamente como um projeto inacabado de ser humano. Mas confesso: existe um prazer silencioso em contrariar expectativas sem fazer alarde.
Eu não discuto, não faço discurso, não levanto bandeira. Eu só vou lá… e faço. E quando a pessoa percebe, já foi. Ela ainda está processando a versão antiga de mim, a versão que ela achou que eu deveria ter, enquanto eu já atualizei o sistema operacional faz tempo. As pessoas te subestimam pela cor da pele, pelo tipo físico, pela roupa de marca que você não usa, pelo fato de você muitas das vezes apenas observar antes de agir e agir rápido, sem delongas.
No fim das contas, ser subestimado é quase um superpoder discreto. Ninguém te vê chegando — e, quando vê, já é tarde demais pra duvidar. E eu? Eu sigo aqui, tranquilo. Deixando as pessoas acharem que eu não sei cozinhar, que eu não sei cantar, que eu não sei isso e aquilo, que eu sou trouxa… enquanto a lasanha tá no forno com uma confiança suspeita.
Jeff Soares

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