Maternidade: Um Adeus para o velho apagamento, um "Olá" para a Expansão
[...] Há um movimento crescente, ainda que por vezes solitário, de mulheres que recusam esse apagamento.
Por muito tempo, sustentou-se, de forma quase silenciosa, mas profundamente enraizada, a ideia de que a maternidade exige renúncia absoluta. Não apenas de tempo ou de sono, mas da própria identidade. Como se, ao nascer um filho, fosse esperado que a mulher deixasse de ser sujeito para tornar-se exclusivamente função.
E infelizmente essa é a realidade de MUUUUUUITAS mães por aí, daquelas que criam os filhos sozinhas, das que até tem companheiros, mas que essas pessoas não são adultos funcionais, não dão suporte emocional, não dão suporte físico, não arrumam uma casa, não lavam uma louça, não ficam com a cria uma tarde pra mãe dar um rolê sozinha, respirar além da maternidade.
Essa é a realidade de muitas a muitas mães, mas para além disso, essa coluna é sobre como nós mães fugiremos ou escaparemos livres dessas rédeas que a sociedade nos impõe de que, tua essência morre e que algo novo surge. E não deixa de ser mesmo né, mas vem aqui que eu te explico melhor.
Nada aqui precisa ser visto como romantização, mas SIM pela perspectiva de que, se temos um ser que depende de nós, logo temos que estar minimamente bem, e pra mim é impossível estar bem quando se olha pela forma de que a maternidade é uma morte da tua antiga versão, não acho que seja o fim, e sim a expansão dela.
Aquela versão adolescente, rebelde, louca que pintava o cabelo de vermelho e usava camiseta do Ramones comprada no camelô em Pelotas, agora na versão protetora, amorosa, que zela, cuida, é responsável, amável e também desmorona.
Tu ainda é a mesma pessoa, com teus gostos, tuas manias, receios e questões. Mas agora vivendo uma continuação de tudo aquilo de um dia tu foi, quela versão foi necessária para que tu fosse quem tu é hoje. E mesmo que tu falhe hoje, existe uma coisa muito valiosa em comum entre tu e tua “eu” do passado, vocês ainda são a mesma pessoa e nada vai mudar isso. E não falo isso como um peso, e sim defendendo que, tua magia, tua essência tá aí.

Há um movimento crescente, ainda que por vezes solitário, de mulheres que recusam esse apagamento. A maternidade, nesse novo olhar, não é ruptura com quem se era, mas continuidade com responsabilidade ampliada. Não se trata de abandonar convicções, desejos ou curiosidades, trata-se, justamente, de sustentá-los com ainda mais coerência. Porque, agora, há alguém observando. Alguém que não apenas escuta discursos, mas absorve práticas.
Eu não deixei de ser eu, eu sou eu mesma com mais potência, mais força, com um espírito animalesco e ancestral que vive não mais só por mim, mas por outro mini ser humano que por alguns anos será dependente de mim. Essa mudança de perspectiva desloca o centro da maternidade: sai o sacrifício como narrativa principal e entra a consciência. O que se diz passa a exigir correspondência no que se faz. E esse alinhamento, longe de ser um peso, pode ser também um motor, força genuína.
Ser mãe, sob essa ótica, não diminui a sede pelo mundo, intensifica. Não reduz a fome de conhecimento, aprofunda. Afinal, apresentar o mundo a alguém implica, antes, revê-lo com mais atenção. Questionar o que antes parecia dado. Reaprender o que já havia sido naturalizado.
Há, nisso, uma espécie de reinício. Não com renúncias e com sacrifícios que soam como uma ferida, mas com consciência, leveza, essa sou eu, assim como fui a vida toda, só que agora mais forte.
A mulher que materna não desaparece: ela se reorganiza. Carrega consigo tudo aquilo que já era, seus valores, inquietações, crenças, mas agora sob uma nova lente. A de quem sabe que cada gesto, cada escolha e cada contradição também educa. E talvez seja aí que resida uma das dimensões mais potentes da maternidade: não na abdicação de si, mas na possibilidade de viver com mais intenção.
Mostrar o mundo a alguém que ainda não o compreende exige, inevitavelmente, coragem. Porque implica reconhecer que o mundo é complexo, por vezes injusto, frequentemente belo, e que não há manual definitivo para traduzi-lo. Maternar, então, deixa de ser um papel fixo e passa a ser um processo vivo. Um exercício contínuo de presença, coerência e descoberta. E, no meio disso tudo, há algo de profundamente humano: a percepção de que, ao ensinar, também se aprende. Que, ao guiar, também se é transformada.
Talvez não seja o fim de uma identidade. Talvez seja, justamente, o começo de uma versão mais consciente dela.
Com amor...
Tamara e Otto

Artesã
Taróloga
Colunista
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