O Corpo que Grita: Maternidade e Identidade em "Se Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” (2025)
[...] O "instinto materno", tantas vezes usado como justificativa social para o sacrifício feminino, é aqui desconstruído.
Assisti ao filme no verão de 2026 na sala de cinema da Casa de Cultura Mário Quintana em Porto Alegre-RS. O título do filme de Mary Bronstein já estabelece, de imediato, uma ruptura com o imaginário da doçura materna. Ao declarar o impulso de um "chute", a obra retira o véu do romantismo e expõe as vísceras da exaustão. Para além de uma narrativa ficcional, o longa funciona como um estudo de caso sobre a solidão materna e a perda de autonomia no sistema contemporâneo.
Sob a ótica do feminismo e da pedagogia do acolhimento, podemos interpretar a trajetória da protagonista como o esgotamento de seu corpo. O filme utiliza o horror psicológico para mostrar que a maternidade, quando desprovida de rede de apoio, pode ser sentida como uma invasão constante: do tempo, do espaço físico e da saúde mental.
Essa solidão é acentuada pela estrutura familiar retratada: embora casada, a protagonista vive em um vácuo de parceria. A escolha narrativa de manter o marido ausente fisicamente durante quase toda a projeção, limitando sua presença a telefonemas que apenas interrompem o fluxo da mãe, sublinha a negligência doméstica. Quando o contato ocorre apenas pela voz, a rede de apoio se desfaz em cobranças distantes, deixando a mulher no epicentro do caos.

A exaustão retratada não é apenas física; é uma crise de identidade. O "instinto materno", tantas vezes usado como justificativa social para o sacrifício feminino, é aqui desconstruído. O filme nos lembra que, antes de ser cuidadora, existe uma mulher cujas ferramentas de suporte estão sendo testadas ao limite pelas pressões sistêmicas e pela omissão de quem deveria dividir o peso.
A direção utiliza o ambiente doméstico como um espaço claustrofóbico, ecoando o silenciamento que muitas mulheres enfrentam. Na educação e na gestão de políticas públicas, falamos frequentemente sobre a importância da escuta ativa, mas o filme nos confronta com uma realidade onde o grito da mãe não é ouvido, e o marido, que surge fisicamente apenas no final, representa a chegada tardia de um sistema que ignora o processo do colapso.
Ao final, "Se Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria" não é uma obra contra a maternidade, mas sim contra a maternidade compulsória e solitária. O filme dialoga diretamente com a necessidade de políticas de acolhimento e espaços de escuta que permitam à mulher ser humana com direito à raiva, ao cansaço e à retomada de sua própria história.
Roberta Luzzardi

Educadora, Defensora do Feminismo Interseccional,
da Agroecologia e da Escola Pública
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