Entre Um Mate, Bytes e Brisas em 2125
Fui provocado a escrever um conto, sobre uma Porto Alegre tecnológica para o concurso Contos RS, infelizmente meu conto não foi escolhido para fazer parte da antologia, mas divido – o com vocês!
No ano de 2125, meu espírito decidiu fazer turismo. Não turismo astral convencional — nada de pirâmides energéticas ou constelações místicas. Resolvi visitar o centro de Porto Alegre, que, acreditem, continuava no mesmo lugar, embora quase irreconhecível, nada de velhos casarões, cheiro de café passado e cigarro. Tudo era novo e cristalino.
A antiga Rua da Praia agora era um corredor arborizado suspenso, onde drones entregavam livros físicos (sim, físicos!) como quem distribui pão quente. O Guaíba, depois de décadas de regeneração ambiental, refletia torres cobertas de vegetação nativa. Capivaras transitavam com a altivez de quem sabe que sobreviveu ao século XXI, às pombas brancas e os passarinhos voavam sobre o rio na mais fiel harmonia.
Foi ali, entre um prédio histórico restaurado por impressoras 5D, onde havia ao lado um memorial interativo da enchente de 2024, que encontrei o “Cyber Café Quintana 5.0”. Entrei flutuando — privilégios espirituais — e dei de cara com três vultos luminosos em volta de uma mesa holográfica.
O primeiro ajustava os óculos invisíveis com ironia delicada. Não precisei de apresentação: era Mário Quintana, com aquele ar de quem sempre soube de tudo, mas preferia fingir surpresa.
Ao lado dele, vibrante como um acorde que nunca termina, estava Elis Regina, testando um microfone quântico que transformava pensamento em melodia.
E, com um tablet translúcido que parecia rir por conta própria, encontrava-se Luís Fernando Veríssimo, analisando as manchetes de um jornal alimentado por inteligência artificial sensível ao sarcasmo.
— Demoraste — disse Quintana, sem mexer os lábios. — A eternidade também tem pontualidade.
Sentei-me (ou algo parecido com sentar-se quando se é espírito). Pedi que imprimissem uma cuia e uma térmica para provar apreciar um chimarrão e provar a erva-mate sintetizada, tendência entre os jovens ectoplasmáticos e vivos (sim, agora não existe mais barreira invisível).
A tecnologia de 2125 era um espetáculo curioso: implantes neurais substituíam celulares, mas as pessoas frequentavam cafés para “desconectar”. A educação havia migrado para ambientes imersivos, onde estudantes caminhavam por reconstruções históricas do Rio Grande do Sul — podiam assistir à Revolução Farroupilha, assistir os gol da dupla Grenal da arquibancada do Beira-Rio ou da Arena ou ainda debater políticas ambientais com avatares de cientistas renomados, agora todo mundo entendia inglês, mas o velho gaúches nunca havia saído de moda. Ainda assim, o velho hábito de reclamar da prova persistia, provando que há tradições imortais.
— A diferença — comentou Veríssimo, ampliando uma notícia no ar — é que agora os algoritmos também reclamam.
Elis riu, e sua risada ecoou como um improviso de jazz. — Pelo menos aprenderam que cultura não é luxo. Depois de quase perderem tudo nas crises climáticas, entenderam que arte também é infraestrutura. ― Aliás, quando vai cantar pra mim?
Eu ri, disse que talvez mais tarde.
E era verdade. Depois das grandes enchentes e secas alternadas do século anterior, o estado investira pesado em sustentabilidade. O Pampa fora parcialmente restaurado, e as cidades aprenderam a conviver com o clima, não a desafiá-lo. Painéis solares orgânicos cobriam fachadas históricas, e as escolas ensinavam programação junto com cultivo agroecológico.
Quintana olhou pela janela virtual — que projetava o Guaíba em tempo real. — A poesia sempre foi tecnologia de sobrevivência — disse ele. — Só que agora descobriram isso nos relatórios científicos.
Falamos sobre a sociedade de 2125. Havia menos carros e mais bicicletas voadoras compartilhadas. O trabalho tornara-se híbrido entre o físico e o digital, mas as pessoas redescobriram o valor do encontro presencial — talvez por terem passado décadas se escondendo atrás de telas. O humor gaúcho sobrevivera intacto, ainda desconfiado, ainda capaz de rir da própria tragédia.
— O problema — opinou Elis — é que continuam discutindo política como se fosse grenal.
— Mas isso é patrimônio imaterial — rebateu Veríssimo. — Se acabar, a UNESCO declara luto.
Rimos todos, inclusive eu, que já não tinha pulmões, mas ainda possuía gargalhada.
No Cyber Café, jovens estudavam acompanhados por tutores holográficos. Alguns escreviam poemas que eram imediatamente musicados pelos músicos ali em volta, agora tudo ficava registrado nos implantes neurais. Outros restauravam digitalmente arquivos históricos, preservando memórias das enchentes, das pandemias, das lutas sociais. A educação parecia menos baseada na competição e mais na colaboração — embora ainda houvesse quem tentasse colar usando um “chip de criatividade terceirizada”.
— No fim — disse Quintana, com aquele brilho travesso —, o ser humano continua o mesmo. Só mudou o aplicativo.
Quando o relógio solar do café marcou o pôr do sol — agora calculado por satélites ecológicos — senti que meu tempo ali se dissolvia. Antes de partir, perguntei o que achavam do Rio Grande do Sul de 2125.
Elis respondeu primeiro: — Ainda canta. E isso é o que importa.
Veríssimo completou: — Ainda ironiza. Sobreviveu porque aprendeu a rir enquanto reconstruía.
Quintana, por fim, concluiu: — E ainda precisa de poesia. Portanto, ainda há esperança.
Saí do Cyber Café acompanhado pelos três rumo a colônia dos Pampa no plano astral, mas com a impressão de que o futuro não era um milagre tecnológico, mas um pacto tardio com a própria humanidade. Porto Alegre continuava sendo uma cidade de encontros — agora entre bytes e brisas do Guaíba, entre fantasmas ilustres e estudantes curiosos. O Rio Grande do Sul aprendeu a valorizar a mulher, trabalha duro para erradicar o racismo histórico e está mais florido.
Meu espírito voltou ao seu tempo com a certeza de que, em 2125, o Rio Grande do Sul não seria perfeito. Mas seria resiliente, musical, espirituoso — e profundamente humano.
E, convenhamos, se até os fantasmas continuam tomando café no centro, é porque a cidade ainda pulsa.
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Infelizmente não fomos escolhidos entre os 15 contos do concurso, mas confesso que escreve-lo foi muito prazeroso e de alguma forma me causa uma emoção que não seu explicar. Quem sabe um dia, quem sabe....
Jeff Soares

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