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O Judiciário e a Desconexão com a Realidade

Declaração de Desembargadora do TJ/PA Causa Revolta

O Judiciário e a Desconexão com a Realidade
Reprodução TJ/PA

A recente declaração da desembargadora, Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará (TJPA) — ao comparar o corte de benefícios do Judiciário aos horrores da escravidão — provocou indignação imediata e expôs um abismo que há muito tempo vem sendo ignorado no Brasil: a distância entre quem julga e quem vive, na prática, as durezas do país real.


A analogia não é apenas infeliz; ela é historicamente irresponsável. A escravidão no Brasil foi um sistema brutal, sustentado por violência, desumanização e exploração extrema de pessoas negras por mais de três séculos. Reduzi-la a uma metáfora para discutir benefícios salariais — os chamados “penduricalhos” — não só banaliza esse passado, como revela uma desconexão profunda com a realidade social brasileira.


Magistrados no Brasil estão entre os servidores públicos mais bem remunerados. Amparados por estabilidade, auxílios diversos e uma estrutura institucional robusta, vivem uma realidade que, embora fruto de mérito e carreira, está muito distante da vivida pela maioria da população. Segundo dados amplamente divulgados por órgãos como o Conselho Nacional de Justiça, a remuneração da magistratura frequentemente ultrapassa o teto constitucional quando somados benefícios, realidade completamente fora do alcance do trabalhador comum.


Do outro lado, está o brasileiro médio: aquele que enfrenta jornadas extensas, transporte precário, insegurança alimentar e um mercado de trabalho instável. Muitos vivem com salários que mal cobrem o básico, sem qualquer tipo de “penduricalho”, sem garantias e, muitas vezes, sem dignidade mínima. Para esse trabalhador, a comparação feita pela magistrada soa não apenas absurda, mas ofensiva.


A crítica, portanto, não deve se limitar à fala isolada, mas ao contexto que a torna possível. Existe uma bolha institucional que, ao longo dos anos, criou uma elite do funcionalismo público pouco exposta às dificuldades cotidianas da população. Quando alguém inserido nesse contexto recorre a uma comparação tão extrema, evidencia-se não apenas um erro retórico, mas um problema estrutural de percepção.


É preciso reconhecer que o Judiciário desempenha um papel fundamental na manutenção da democracia e do Estado Democrático de Direito em tempos de extremismo. No entanto, esse reconhecimento não pode servir como escudo para afastar críticas legítimas. Pelo contrário: quanto maior o poder, maior deve ser a responsabilidade — inclusive no uso da palavra.


Ao evocar a escravidão para tratar de benefícios financeiros, a magistrada não apenas errou: ela revelou o quanto parte das instituições ainda está distante da realidade que deveria compreender e servir ao cidadão. Neste país marcado por desigualdades históricas profundas, esse tipo de declaração não é apenas inadequada — é um sintoma preocupante de desconexão com a realidade.


No fim, o episódio reforça uma necessidade urgente: aproximar o discurso institucional da realidade concreta da população. Porque enquanto houver quem compare perda de privilégios a séculos de opressão, o Brasil continuará sendo um país onde nem todos vivem — ou entendem — a mesma história.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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