cover
Tocando Agora:

Dica de Filme: Eles Não Usam Black-Tie (1981)

Um clássico absoluto do Cinema Brasileiro!

Dica de Filme: Eles Não Usam Black-Tie (1981)
Imagem Divulgação

Assistir a “Eles Não Usam Black-Tie” é como abrir uma ferida que nunca cicatrizou completamente — e talvez nem devesse. Dirigido por Leon Hirszman e inspirado na peça de Gianfrancesco Guarnieri, o filme não apenas conta uma história: ele pulsa, respira e confronta.


Ambientado no coração da classe trabalhadora, o longa nos apresenta a um Brasil que, embora situado em outro tempo, continua assustadoramente atual. A narrativa gira em torno de Otávio, vivido com força quase visceral por Gianfrancesco Guarnieri, um líder sindical cuja vida é guiada pela luta coletiva. Do outro lado está seu filho, Tião, interpretado por Carlos Alberto Riccelli, que representa o dilema íntimo de quem precisa escolher entre o ideal e a sobrevivência.


Mas o filme ganha ainda mais densidade emocional com Maria, personagem de Bete Mendes. Grávida e atravessada pela urgência da vida real, ela protagoniza uma das cenas mais marcantes da obra ao confrontar Tião. Em um momento de tensão crua, Maria questiona não apenas a decisão dele de furar a greve, mas o próprio sentido de suas escolhas. Não é apenas um embate conjugal — é um choque entre sonhos, responsabilidades e a dureza do mundo. A forma como ela encara Tião, com uma mistura de dor, indignação e lucidez, é devastadora. Ali, o filme deixa de ser apenas político e se torna profundamente íntimo.



Carlos Alberto Riccelli e Bete Mendes


E é nesse conflito — entre pai e filho, entre coletivo e individual, entre coragem e medo — que o filme encontra sua alma. Não há vilões claros, não há respostas fáceis. Há, sim, humanidade em estado bruto. As ações de Tião não são covardia, mas desespero. A firmeza de Otávio não é rigidez, é convicção. O espectador não assiste de fora: ele é puxado para dentro desse embate, quase como se tivesse que tomar partido, sabendo que qualquer escolha carrega um preço.



Carlos Alberto Richelle, Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro em cena.


A presença de Fernanda Montenegro como Romana eleva ainda mais o peso emocional da obra. Sua personagem é o elo silencioso, a força que sustenta sem discursos, mas que sente tudo — talvez mais do que todos. Há uma dignidade em seu olhar que diz o que palavras não alcançam. Em cenas domésticas aparentemente simples — como as conversas na cozinha ou os silêncios carregados —, ela constrói um retrato poderoso da mulher que mantém a família de pé enquanto o mundo ao redor desmorona. Outros nomes do elenco, como Milton Gonçalves, também contribuem para dar ainda mais textura ao universo retratado, trazendo humanidade e veracidade aos trabalhadores que orbitam essa história de luta e sobrevivência.



Milton Gançalves em uma das cenas mais dramáticas d o filme.


O filme também é um retrato contundente de um Brasil marcado por desigualdade, repressão e luta. Produzido ainda sob os ecos da ditadura militar, ele carrega uma coragem rara: a de falar sobre organização popular, greve, resistência. Cenas como as assembleias, os diálogos tensos entre operários e a constante presença da repressão policial constroem uma atmosfera de urgência e perigo iminente.


Mas o que mais impressiona é como, mesmo sendo profundamente político, nunca deixa de ser íntimo. As grandes questões nacionais atravessam a mesa de jantar, os quartos apertados, os silêncios familiares. A decisão de Tião, por exemplo, não é apenas ideológica — é atravessada pelo medo de não conseguir sustentar sua nova família, o que torna tudo ainda mais doloroso.


“Eles Não Usam Black-Tie” não é confortável — e essa é justamente sua grandeza. Ele incomoda, provoca, emociona e permanece. Ao final, não há catarse fácil, nem sensação de alívio. O que fica é um nó na garganta e uma pergunta persistente: até onde estamos dispostos a ir por aquilo em que acreditamos? É um filme que não envelhece porque fala de escolhas humanas fundamentais. E, talvez por isso, continue sendo tão necessário — não apenas como obra cinematográfica, mas como espelho de um país que ainda luta para equilibrar justiça social e sobrevivência individual.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador


Comentários (0)