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Da escravidão ao Serviço Doméstico: A Continuidade do Trabalho das Mulheres Negras

[...] Não apenas na limpeza ou na cozinha, mas no cuidado direto da intimidade das famílias brancas.

Da escravidão ao Serviço Doméstico: A Continuidade do Trabalho das Mulheres Negras
Foto: Regina de Grammont/Folhapress

No Brasil e no mundo, o Dia do Trabalho costuma ser contado como uma história de conquistas progressivas, direitos trabalhistas, inserção no mercado formal, emancipação feminina. Mas há uma fissura profunda nessa narrativa: ela não contempla, de forma honesta, a experiência histórica das mulheres negras. Para elas, o trabalho nunca foi um direito a ser conquistado, foi, desde sempre, uma imposição violenta, contínua e estruturante da própria sociedade brasileira.


Durante mais de três séculos de escravidão, mulheres negras foram alocadas majoritariamente no trabalho doméstico. Não apenas na limpeza ou na cozinha, mas no cuidado direto da intimidade das famílias brancas. Eram as chamadas mucamas, amas de leite, criadas de dentro, figuras que ocupavam um lugar paradoxal: próximas da família senhorial, mas desprovidas de qualquer humanidade reconhecida. Como descrevem estudos históricos, essas mulheres eram responsáveis por acompanhar as “sinhás”, cuidar das crianças, aconselhar as jovens e, muitas vezes, eram também vítimas de violência sexual sistemática por parte dos senhores.


É nesse contexto que emerge a figura simbólica e brutal da “mãe preta”. A mulher negra que amamentava, embalava e criava os filhos da casa-grande enquanto os seus próprios eram deixados à marge, aos cuidados de outras mulheres, de parentes, ou, em muitos casos, à própria sorte. Não se trata de metáfora: era uma prática institucionalizada no sistema escravocrata, que deslocava o exercício da maternidade negra para servir à reprodução emocional e física da elite branca.


Essa ruptura forçada do vínculo materno não foi um efeito colateral, foi parte central da engrenagem. O corpo da mulher negra era apropriado não apenas como força de trabalho, mas como instrumento de cuidado para garantir a continuidade da estrutura social escravista. Ao mesmo tempo em que nutria o filho da senhora, a mãe preta era impedida de exercer plenamente a maternidade sobre o seu próprio filho. Havia, portanto, uma expropriação dupla: do trabalho e do afeto.


A abolição formal da escravidão em 1888 não rompeu essa lógica. Ao contrário, a ausência de políticas de inclusão para a população negra recém-liberta fez com que muitas dessas mulheres fossem empurradas para a continuidade do trabalho doméstico, agora sob novas formas de exploração. Não houve reforma agrária, não houve acesso massivo à educação, não houve garantia de trabalho digno. O que houve foi uma transição quase direta da senzala para o quarto de empregada.


Essa herança não é apenas histórica, ela é estrutural e permanece visível nos dados atuais. No Brasil contemporâneo, cerca de 69,9% das pessoas que trabalham com serviços domésticos e de cuidado são mulheres negras. Trata-se de uma continuidade estatística que escancara o quanto o país ainda organiza o trabalho a partir de marcadores raciais e de gênero.




Além disso, essas trabalhadoras seguem ocupando posições mais precarizadas, com menor acesso à formalização, salários mais baixos e maior vulnerabilidade social. Em muitos casos, ainda são contratadas por acordos informais, sem direitos trabalhistas assegurados. A sobrecarga também é evidente: são maioria nos trabalhos de cuidado, aqueles que sustentam a vida cotidiana, mas permanecem invisibilizados econômica e simbolicamente.


Quando se observa esse percurso histórico, torna-se impossível falar sobre “emancipação feminina” de forma homogênea. Enquanto mulheres brancas lutavam legitimamente pelo direito de ingressar no mercado de trabalho e romper com o confinamento doméstico, mulheres negras já estavam trabalhando exaustivamente dentro desses mesmos lares. A luta delas era outra: não por acesso ao trabalho, mas por condições dignas, por reconhecimento, e, sobretudo, pelo direito de cuidar de suas próprias famílias.


A figura da mãe preta, portanto, não pertence apenas ao passado. Ela ecoa no presente sempre que uma mulher negra precisa sair de casa antes do amanhecer para cuidar do filho de outra mulher, enquanto o seu próprio permanece distante. Ecoa na desigualdade de tempo, de afeto e de possibilidade.


O Dia do Trabalho, quando atravessado por essa perspectiva, deixa de ser apenas comemorativo. Ele se torna um convite à revisão crítica: quem pôde escolher trabalhar? Quem nunca teve essa escolha? Quem sustentou(e ainda sustenta), as bases invisíveis que permitem que outros tenham liberdade?


Reconhecer a centralidade das mulheres negras na história do trabalho no Brasil não é apenas um gesto de justiça simbólica. É um passo necessário para compreender que as desigualdades atuais não são acidentais, são heranças diretas de um modelo que, por séculos, naturalizou a exploração de seus corpos, de seu tempo e de sua maternidade.


E talvez o verdadeiro significado do Dia do Trabalho, à luz dessa história, seja este: não celebrar apenas o direito ao trabalho, mas reivindicar, com a mesma urgência, o direito ao descanso, ao cuidado próprio e à maternidade plena, direitos que, para muitas mulheres negras, ainda seguem em disputa.






Tamara Nunes

Artesã

Oraculista

Poetisa

Colunista

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