Dica de Cinema - Querô (2007)
[...] “Querô” não tenta romantizar à miséria. Ao contrário: ele obriga o espectador a olhar diretamente para ela.
Há filmes que contam histórias. Outros escancaram feridas. Querô pertence à segunda categoria. Dirigido por Carlos Cortez e inspirado na obra de Plínio Marcos, o longa é um soco seco na boca do estômago — daqueles que não permitem ao espectador sair intacto da sala. Não há glamour, redenção fácil ou poesia fabricada. O que existe em “Querô” é abandono, violência e uma humanidade esmagada pela brutalidade cotidiana das ruas.
A história acompanha "Querô", interpretado de forma avassaladora por Maxwell Nascimento, um adolescente marcado desde o nascimento pela tragédia. Filho de uma prostituta que se suicida após ingerir querosene, o garoto cresce cercado pelo desprezo, pela fome e pela ausência absoluta de afeto. O apelido “Querô”, herdado da morte da mãe, funciona como maldição e identidade. É impossível assistir ao personagem sem perceber que ele já nasceu condenado por uma sociedade que escolhe quais vidas merecem futuro — e quais apenas sobrevivem até serem descartadas.

O filme se passa em uma Santos sufocante, cinza e cruel. A cidade não é apenas cenário: ela engole seus personagens. Becos úmidos, delegacias violentas, prostíbulos decadentes e ruas sem esperança compõem um retrato urbano que lembra o melhor do cinema social brasileiro. Mas “Querô” não tenta romantizar à miséria. Ao contrário: ele obriga o espectador a olhar diretamente para ela. E talvez seja justamente isso que torne a experiência tão dolorosa.
As cenas envolvendo a violência policial são particularmente difíceis de assistir. Há um realismo cru nas sequências dentro da FEBEM e das delegacias que faz o filme ultrapassar a ficção em muitos momentos. Não é apenas sobre agressão física; é sobre a destruição sistemática da dignidade. Querô apanha porque é pobre, porque é órfão, porque é menino de rua, porque ninguém vai defendê-lo. O longa expõe um Brasil que prefere tratar crianças abandonadas como ameaça antes mesmo de enxergá-las como crianças.

Ainda assim, o filme encontra pequenos instantes de delicadeza em meio ao caos. A relação de Querô com Lica, personagem de Maria Luísa Mendonça, cria breves respiros emocionais dentro de uma narrativa sufocante. São momentos em que o personagem parece experimentar algo próximo do carinho, da possibilidade de ser visto como humano. E talvez seja justamente essa mínima fagulha de afeto que torna o restante ainda mais cruel: porque o espectador entende que Querô poderia ter sido outra pessoa, em outro país, em outra realidade, em outra vida.
Existe também algo profundamente simbólico na interpretação de Maxwell Nascimento. Seu rosto carrega uma mistura constante de raiva e tristeza, como alguém que aprendeu cedo demais que demonstrar fragilidade é perigoso. O ator entrega um desempenho quase documental, sem exageros, sem teatralidade, apenas sobrevivendo diante da câmera. Há cenas em que o silêncio do personagem diz mais do que qualquer diálogo poderia alcançar.

Como adaptação do universo de Plínio Marcos, “Querô” honra o espírito do autor ao retratar personagens marginalizados sem filtros moralistas. O dramaturgo sempre escreveu sobre os esquecidos — prostitutas, mendigos, ladrões, crianças abandonadas — não como caricaturas sociais, mas como pessoas atravessadas pela violência estrutural do país. O filme preserva essa essência brutal e humana.
No fim, Querô deixa uma sensação amarga rara no cinema. Não porque seja pessimista gratuitamente, mas porque entende que existem histórias sem final feliz possível dentro de um sistema construído para esmagar certos corpos desde o nascimento. É um filme sobre infância roubada, sobre solidão extrema e sobre a crueldade de um país que insiste em abandonar seus filhos mais pobres enquanto finge não vê-los. E talvez seja justamente por isso que “Querô” permanece tão atual, tão incômodo e tão necessário.
Jeff Soares

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