Quando a Esquerda Brasileira fará sua Autocrítica?
Esse texto foi escrito logo após assistir manifestação de Jefferson Wilson no Instagram, manifestação essa que corroboro imensamente .
Assista o vídeo aqui! LINK
Assistir a esta fala de Jefferson Wilson, me atravessou profundamente, pois penso muito como ele. Existe algo profundamente doloroso nessa fala, porque ele desmonta uma fantasia muito confortável: a de que toda presença em uma manifestação significa, automaticamente, compromisso real com transformação social. A distância entre viver uma opressão e apenas comentar sobre ela. Entre ter consciência intelectual de uma violência e ter o corpo permanentemente atravessado por ela. Esses são os antirracistas de ocasião. Sim, eles existem e a esquerda precisa de uma autocrítica.
A crítica não nasce por ingratidão, longe disso, mas pelo esgotamento provocado pela superficialidade de certas alianças. Porque há uma diferença brutal entre apoiar uma causa e depender dela para sobreviver. Para algumas pessoas, o debate sobre racismo, misoginia, transfobia ou homofobia acontece em ambientes acadêmicos, timelines organizadas e rodas politizadas onde ainda existe segurança emocional para errar, sair, descansar e seguir à vida. Para outras, esses temas não são discussão: são estrutura diária de sobrevivência. São o medo ao caminhar pela rua, a necessidade de medir o tom da voz, o cuidado constante com o próprio corpo, a própria existência.
A fala também aponta para um fenômeno muito contemporâneo: a estetização da militância. Em uma era em que tudo pode ser transformado em imagem, até a resistência corre o risco de virar linguagem visual, identidade social e capital simbólico. O protesto vira fotografia. O discurso vira performance. A indignação vira parte da construção pública de uma personalidade politicamente aceitável. E isso cria uma distorção perigosa: a sensação de que parecer consciente é o mesmo que estar comprometido.
Mas compromisso verdadeiro nunca é confortável. Ele exige perder espaço, abrir mão de protagonismo, escutar sem transformar tudo em disputa de ego intelectual. Exige entender que nem toda luta precisa ser liderada por quem sempre teve voz. E talvez seja justamente aí que a fala se tornou tão incômoda: porque Jefferson questiona não apenas a omissão da direita diante das violências sociais, mas também os limites da própria esquerda quando ela reproduz hierarquias dentro dos espaços que dizem combater desigualdades.
Há ainda uma dimensão emocional muito forte no que ouvimos: o cansaço. Não o cansaço abstrato de quem “acompanha notícias ruins”, mas o desgaste psíquico de viver permanentemente sob ameaça política. O crescimento do extremismo e o avanço de discursos violentos não são apenas movimentos institucionais; são alterações concretas na possibilidade de existir em segurança. O medo não termina quando a manifestação acaba. Ele continua no trajeto para casa, no olhar atravessado no transporte público, na incerteza sobre o futuro.
Talvez a frase mais importante do depoimento seja justamente a ideia de que “presença não é compromisso”. Porque estar fisicamente em um ato não significa necessariamente dividir riscos, recursos ou poder. E sem isso, a luta pode facilmente se transformar em uma espécie de catarse moral coletiva: um mecanismo para aliviar consciências sem alterar estruturas.
A manifestação não rejeita alianças. Ele rejeita alianças vazias. Rejeita a política tratada como experiência estética, como performance de consciência social ou como ambiente de validação pública. O que ele pede, no fundo, é algo mais difícil e menos glamouroso: coerência. Uma solidariedade que sobreviva depois das fotos, depois dos slogans e depois do sábado à tarde.
Porque existem pessoas para quem a violência nunca termina quando o protesto acaba. E enquanto isso não for compreendido profundamente, parte da militância continuará funcionando mais como encenação de mudança do que como transformação real.
Mas talvez escrever isso me transforme em uma "persona non grata"... o tempo irá dizer!
Jeff Soares

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