Luiz Carlini – Obrigado!
Um dos Heróis da Guitarra no Brasil
Na última sexta-feira (08), acordei com um gosto amargo na boca e lágrimas nos olhos, a gente estava se despedindo de Luiz Carlini, e está sendo muito dolorido se despedir de um dos maiores guitarristas do Rock Brasileiro, mas não só isso de um ser humano que ia além da figura de ídolo, pois era absurdamente caloroso e gentil. Para muitos fãs como eu, é como perder uma presença constante da própria vida. Daquelas figuras que, mesmo sem conhecer pessoalmente ― no meu caso apenas virtualmente ― ajudaram a moldar sentimentos, descobertas musicais e até maneiras de enxergar o mundo através da arte.
Conheci Carlini primeiro pelos discos. Pela guitarra cortante, psicodélica e absolutamente viva que atravessava álbuns históricos ao lado de Rita Lee e da lendária Tutti Frutti. Em músicas icônicas como Ovelha Negra, onde sua guitarra não servia apenas como acompanhamento: ela conversava, chorava e transcendia junto com cada verso. Carlini ajudou a criar uma identidade sonora para o Rock Brasileiro que ainda hoje parece moderna, perigosa e emocionalmente honesta.
Enquanto muitos guitarristas buscavam virtuosismo, Luiz Carlini tocava com alma e honestidade. Seu timbre tinha sujeira, personalidade e sentimento. Era o tipo de músico capaz de transformar poucos acordes em assinatura. Para quem cresceu ouvindo aqueles discos, ele não era apenas um instrumentista; era parte de uma atmosfera. O som da liberdade, da rebeldia e da poesia urbana brasileira dos anos 70.
Mas existe algo ainda mais especial quando um ídolo atravessa a barreira do imaginário e se torna humano diante dos nossos olhos. Anos atrás, tive a oportunidade de conversar com Carlini, depois dele comentar uma matéria minha no Whiplash sobre outro mestre da guitarra: Ian Bairnson, conhecido por seu trabalho com The Alan Parsons Project, Kate Bush e por solos que marcaram gerações. Saber que Carlini leu algo que escrevi já parecia surreal por si só. Mas receber um elogio dele — justamente dele — foi daqueles momentos pequenos por fora e gigantescos por dentro. Como se, por alguns segundos, o adolescente que passava horas ouvindo vinis tivesse encontrado algum sentido silencioso naquela admiração construída durante uma vida inteira.

Porque Luiz Carlini carregava isso: a capacidade rara de fazer o fã se sentir parte do seu universo musical. Mesmo sendo uma lenda, nunca pareceu inalcançável. Talvez por isso sua partida doa tanto agora. Não apenas pela importância histórica, mas pela sensação de que vai embora alguém que estava presente em muitos capítulos pessoais de milhares de brasileiros.
Sua influência vai permanecer espalhada por toda a música nacional. Está nas bandas de garagem, nos guitarristas independentes, nos discos de rock setentista que seguem sendo descobertos por novas gerações e também na coragem artística de quem entendeu que técnica sem identidade não significa nada. Carlini fez escola justamente porque nunca tentou soar como ninguém além dele mesmo.
Hoje, revisitar os discos de Rita Lee & Tutti Frutti e da banda Tutti Frutti sem a Rita, ganha um peso diferente. Cada riff parece carregar despedida que eu não queria ter, mas memória e permanência ao mesmo tempo. E talvez seja esse o verdadeiro destino dos grandes músicos: partir fisicamente, mas continuar vivos toda vez que alguém coloca uma agulha sobre o vinil, aumenta o volume e sente a guitarra preencher a casa como se o tempo jamais tivesse passado.
Infelizmente não tivemos tempo de fazer a nossa conversa, mas quem sabe um dia no céu dos músicos. Obrigado, Mestre!
Jeff Soares

Jornalismo
Músico
Apresentador
Comentários (0)