O Mito da Perfeição: A Necessária Desromantização da Maternidade e o Peso da Culpa
[...]Desromantizar é humanizar. É admitir que a maternidade é um trabalho que inclusive é físico, mental e emocional e, portanto, exige suporte.
Por gerações, a maternidade foi e ainda é vendida como o ápice da realização feminina, envolta em um véu de instinto natural, doação absoluta e felicidade plena. E infelizmente ainda temos a romantização da maternidade, o que faz com que muitas mulheres sofram diante da realidade exposta depois do nascimento do filho. Os bastidores dessa narrativa revelam uma realidade muito mais complexa e, muitas vezes, exaustiva. Desromantizar a maternidade não é um ataque aos filhos, mas sim um ato de libertação para as mulheres, permitindo que a realidade com suas dores, cansaços e ambiguidade finalmente ocupe o espaço que lhe cabe.
A mulher da atualidade vive sob uma lente de julgamento constante, independentemente da direção que escolha tomar, seja como a mulher que decide não ter filhos onde frequentemente é rotulada como egoísta ou incompleta.
A sociedade ainda encara a não-maternidade como um desvio de função, ignorando que a autonomia reprodutiva é um direito básico. Como a mulher que decide ter filhos onde é Imediatamente submetida ao padrão da "mãe perfeita". Se ela trabalha fora, sente culpa por "abandonar" a criança; se fica em casa, sente o peso do apagamento da sua identidade individual e profissional.
A culpa tornou-se a sombra da maternidade. Ela nasce do abismo entre a mãe idealizada (aquela que nunca se irrita e sempre sabe o que fazer) e a mãe real (que sente exaustão, tédio e, por vezes, arrependimento do cansaço, não do filho).
Chamar uma mãe de "guerreira" é, na verdade, uma forma de naturalizar a sobrecarga. Ao romantizar a força feminina diante do caos e do abandono (seja do Estado ou do parceiro), a sociedade se isenta da responsabilidade de oferecer apoio real. Se ela é uma guerreira, subentende-se que ela precisa lutar sozinha e que o sofrimento faz parte da sua glória.
Precisamos de políticas públicas e divisão de tarefas, não de medalhas por exaustão.
Outro equívoco é com a expressão "pãe" (pai + mãe) que é frequentemente usada para designar mulheres que criam filhos sozinhas. Embora pareça um elogio à sua força, o termo é problemático por dois motivos principais: invisibiliza a a ausência paterna e naturaliza a sobrecarga materna, ou seja, uma mulher não pode e não deve ter que suprir o papel de duas pessoas. E ela é uma mãe solo exercendo sua função. O termo "pãe" reforça a ideia de que a mulher deve ser autossuficiente, mascarando a negligência masculina.
Desromantizar é humanizar. É admitir que a maternidade é um trabalho que inclusive é físico, mental e emocional e, portanto, exige suporte. Para que a culpa deixe de ter essa imagem das escolhas femininas, precisamos de: rede de apoio efetivas, como aquela ideia de que "é preciso uma aldeia para educar uma criança" precisa sair do papel; ter a responsabilização paterna, ou seja, o cuidado não é ajuda, é dever compartilhado e o respeito à individualidade em que a mulher não deixa de existir quando o filho nasce.
Somente ao derrubarmos os pedestais de maternidade vista como “santidade” e as armaduras de "guerreira", poderemos construir uma sociedade onde a maternidade (ou a ausência dela) seja vivida com leveza, verdade e, acima de tudo, sem o peso esmagador da culpa.
Roberta Luzzardi

Educadora. Defensora do Feminismo Interseccional,
da Agroecologia e da Escola Pública.
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