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Juliano Cazarré – Mais Um Coach Desnecessário

O cursinho do momento para os héteros top .

Juliano Cazarré – Mais Um Coach Desnecessário
Imagem/Instagram

Há algo profundamente revelador no fato de que parte da masculinidade contemporânea tenha deixado de buscar terapia, autoconhecimento ou maturidade emocional para procurar cursos ministrados por celebridades em crise existencial, fantasiadas de guias morais. O curso de homens conservadores do ator Juliano Cazarré parece nascer exatamente desse vazio: um produto embalado na estética da “família tradicional”, mas sustentado por um ressentimento moderno contra tudo aquilo que desafia privilégios antigos.


A promessa costuma vir adornada de palavras como honra, liderança, virilidade, proteção e fé. Na prática, o discurso frequentemente soa como uma tentativa desesperada de resgatar um modelo masculino incapaz de sobreviver sem hierarquia rígida, submissão feminina e pânico moral constante. É curioso como esses cursos falam tanto sobre força enquanto revelam homens assustados com mulheres independentes, diversidade sexual, debate de gênero e qualquer forma de sensibilidade emocional que não passe pelo filtro da autoridade patriarcal.


Existe também algo quase tragicômico na transformação da masculinidade em coaching espiritualizado. O sujeito paga para ouvir obviedades empacotadas como sabedoria ancestral: “seja firme”, “assuma responsabilidades”, “proteja sua família”. Conselhos que qualquer avô minimamente funcional daria de graça, sem precisar montar uma plataforma digital nem vender uma cruzada cultural contra o século XXI.


O problema mais profundo, porém, não está apenas na caricatura ideológica. Está na romantização de um homem emocionalmente amputado. Muitos desses discursos tratam empatia como fraqueza, vulnerabilidade como degeneração e reflexão crítica como ameaça. O resultado é uma masculinidade teatral: homens performando dureza enquanto acumulam frustrações, inseguranças e incapacidade de construir relações saudáveis fora da lógica de controle.


Há ainda uma contradição difícil de ignorar: figuras públicas que construíram carreira dentro da indústria cultural moderna — cinema, televisão, publicidade, redes sociais — passam a demonizar justamente a modernidade que lhes deu visibilidade e dinheiro. É o conservadorismo gourmet: critica o mundo contemporâneo usando câmeras de alta definição, monetização digital e marketing de engajamento emocional.


No fundo, esse tipo de curso não parece preocupado em formar homens melhores. Parece mais interessado em produzir homens ressentidos, convencidos de que perderam um trono que talvez nunca tenham tido. E ressentimento vendido como virtude costuma ser apenas medo com linguagem religiosa.


Talvez o aspecto mais irônico seja que masculinidade segura não precisa anunciar sua superioridade em módulos parcelados. Homem realmente maduro não teme igualdade, não entra em colapso diante de mudanças sociais e não transforma a própria insegurança em doutrina moral para consumo coletivo.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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