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Entre a Anistia e a Fake News - O Projeto da Extrema Direita para Desmontar Direitos e Enfraquecer a Democracia

[...] O elo entre todos esses acontecimentos não é coincidência.

Entre a Anistia e a Fake News - O Projeto da Extrema Direita para Desmontar Direitos e Enfraquecer a Democracia
Foto: Jonas Pereira/Agência Senado

A última semana no Congresso Nacional revelou, de forma quase didática, o projeto político da extrema direita brasileira para o país. Em poucos dias, parlamentares ligados ao bolsonarismo acumularam iniciativas que, embora diferentes entre si, compartilham uma mesma lógica: enfraquecer mecanismos de proteção democrática, reduzir direitos sociais e transformar a desinformação em método permanente de atuação política.


De um lado, a deputada Bia Kicis apresentou movimentações para retirar do Código Penal os crimes contra o Estado Democrático de Direito — justamente os dispositivos criados após a revogação da antiga Lei de Segurança Nacional. Na prática, trata-se de uma tentativa de desmontar instrumentos legais que passaram a ser utilizados para responsabilizar organizadores e financiadores de ataques golpistas, especialmente após os atos de 8 de janeiro. O argumento costuma vir embalado em discursos sobre “liberdade de expressão”, mas o efeito concreto seria fragilizar a capacidade do Estado de reagir institucionalmente a tentativas de ruptura democrática.


Ao mesmo tempo, Sóstenes Cavalcante voltou a articular a chamada PEC da Anistia aos envolvidos nos atos golpistas. A proposta representa um dos movimentos mais graves em curso no Congresso porque tenta transformar uma tentativa de subversão institucional em episódio politicamente perdoável. O recado é perigoso: grupos que atentam contra a democracia podem, no futuro, contar com proteção política caso possuam força eleitoral suficiente. Não se trata apenas de uma disputa jurídica; trata-se da construção de um precedente histórico profundamente corrosivo.


Enquanto isso, a articulação para frear o avanço da PEC do fim da escala 6x1 no Senado expõe outro eixo central desse mesmo projeto político: a defesa radical de interesses econômicos em detrimento das condições de vida da população trabalhadora. O debate sobre a jornada 6x1 não é apenas uma pauta sindical. Ele envolve saúde mental, tempo de descanso, convivência familiar e dignidade humana. Ainda assim, setores da extrema direita atuam para empurrar a discussão para depois das eleições, evitando desgaste junto ao empresariado enquanto tentam escapar da cobrança popular.


Nesse contexto, chama atenção a posição da deputada Julia Zanatta, que defendeu um prazo de até 12 anos para o eventual fim da escala 6x1. A proposta revela muito sobre a lógica de parte do parlamento brasileiro: direitos sociais são tratados como concessões futuras e lentas, enquanto privilégios econômicos seguem preservados no presente. Para quem enfrenta jornadas exaustivas hoje, falar em uma mudança daqui a mais de uma década soa menos como transição responsável e mais como estratégia para esvaziar o debate sem precisar enfrentá-lo diretamente.


Paralelamente, Nikolas Ferreira voltou ao centro de outra controvérsia envolvendo disseminação de fake news, desta vez no caso relacionado à marca Ypê. O episódio reforça um padrão já consolidado: a extrema direita brasileira compreendeu que a produção contínua de indignação digital funciona como combustível político. A desinformação deixa de ser acidente e passa a operar como estratégia deliberada de mobilização emocional.


O elo entre todos esses acontecimentos não é coincidência. Existe uma coerência ideológica clara. Enquanto se busca enfraquecer punições contra ataques à democracia, também se tenta anistiar golpistas. Enquanto direitos trabalhistas são adiados indefinidamente, a política é transformada em palco de guerra cultural permanente baseada em desinformação e polarização. Trata-se de um modelo de atuação que aposta no desgaste institucional constante, na radicalização do debate público e na proteção de estruturas de poder tradicionais.


O mais preocupante talvez seja a normalização desse processo. A cada nova proposta autoritária ou socialmente regressiva, o debate público parece absorver o absurdo com velocidade crescente. O que há poucos anos pareceria politicamente inviável agora passa a circular como “mais uma pauta” do Congresso. E é justamente aí que reside o risco maior: democracias raramente são destruídas de uma única vez. Elas costumam ser corroídas gradualmente, através da banalização do extremismo, do enfraquecimento institucional e da transformação da violência política em ferramenta eleitoral aceitável.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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