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A pornográfica produção Dark Horse

Cinema duvidoso bancado pelo Banco Master!

A pornográfica produção Dark Horse
Imagem Internet

O escândalo envolvendo o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, talvez revele mais sobre o Brasil contemporâneo do que a própria obra pretende contar. Não se trata apenas de cinema, mas de propaganda política e disputa eleitoral. O que emerge da relação entre membros da família Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro é uma espécie de obscenidade pública travestida de produção cultural — uma pornografia política onde poder, dinheiro, idolatria e espetáculo se misturam sem qualquer constrangimento.


Segundo reportagens recentes, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro admitiu ter buscado financiamento privado junto a Vorcaro para viabilizar o longa, justamente enquanto o banqueiro se tornava alvo de investigações relacionadas a um gigantesco escândalo financeiro. Áudios, mensagens e documentos divulgados pela imprensa colocaram o filme no centro de uma crise política que ultrapassou os limites do entretenimento.


O mais perturbador não é apenas o suposto volume milionário de recursos discutidos para a produção — valores que colocariam Dark Horse entre os filmes mais caros da história do cinema brasileiro — mas a própria lógica por trás da obra. O filme surge como uma tentativa de transformar Bolsonaro em mito cinematográfico, herói messiânico e mártir político, embalado por uma narrativa épica importada da estética conservadora norte-americana. Ou seja, uma bela porcaria.


Há algo profundamente pornográfico nisso. Não pornografia sexual, mas política: a exposição exagerada do culto à personalidade, da vitimização transformada em produto audiovisual e da tentativa de converter uma figura cercada de controvérsias em personagem sagrada para consumo ideológico. A pornografia está no excesso. Na encenação da grandeza. Na fabricação artificial, irreal e mentirosa de heroísmo.


O título Dark Horse — “azarão”, em tradução livre — parece querer vender Bolsonaro como um improvável salvador popular perseguido por forças ocultas. Mas o que o escândalo revela é outra coisa: a proximidade entre setores do poder político, interesses econômicos nebulosos e uma máquina constante de produção de narrativas emocionais que abarcam em pessoas que não conseguem distinguir verdades.


A própria escolha de Jim Caviezel para interpretar Bolsonaro carrega forte simbolismo. O ator, eternizado como Jesus em A Paixão de Cristo, tornou-se nos últimos anos um ícone de setores ultraconservadores e conspiratórios nos Estados Unidos. A escalação parece menos uma decisão artística e mais uma operação simbólica cuidadosamente calculada: aproximar Bolsonaro da imagem de um líder sacrificado, perseguido e redentor.


Enquanto isso, o cinema brasileiro real — o que luta por financiamento, diversidade, experimentação e sobrevivência — observa perplexo cifras astronômicas circulando em torno de uma obra concebida não como arte, mas como instrumento político. O contraste é brutal. Talvez seja justamente por isso que Dark Horse tenha deixado de ser apenas um filme. Tornando-se síntese de um tempo em que política virou espetáculo permanente, onde a construção da imagem vale mais que a realidade, e onde até a linguagem do cinema pode ser usada para fabricar devoção.


No fim, gostaria de saber se o filme irá mostrar a situação de mais de 700 mil pessoas mortas sem vacina pela covid 19, a fila o osso nos mercados, a incapacidade de diálogo com as pessoas. É poucas coisas são tão pornográficas quanto transformar poder em adoração audiovisual.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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