Perspectivas #3: Sobre Mares e Portos
Uma leve brisa pelo porto de Rio Grande.
Nesse último dia 28, quarta feira, estive pela cidade de Rio Grande por algumas questões envolvendo saúde e, durante uma parte do dia, pude visitar a região do Porto - pela qual nunca havia passeado antes. Foi uma experiência muito bacana ver os barcos atracados e aquela imensidão das águas. Onde eu moro não temos essas coisas, então dediquei tempo a observar o local e os meus pensamentos naquele momento. É claro que alguma coisa sairia disso, e aqui estamos nós.
Enquanto meditava de olhos abertos diante daquilo tudo, recordei de uma vez ter lido uma frase em algum lugar que dizia algo do tipo "os navios estão seguros nos portos, mas não é pra ficar nos portos que os navios são construídos".
Navios possibilitam o transporte através das águas, são um interessante símbolo do desbravar. O mar, merecedor de todo respeito, carrega consigo uma imensidão difícil de dimensionar. Muito já me peguei assistindo coisas sobre descobertas de fundo do oceano, em áreas onde sequer seríamos capazes de sobreviver à pressão da água. O mar é imenso, e o barco navega pela imensidão. Mas também visita os portos, e neles permanece.
Naquele momento em que estive presente diante dos barcos atracados, visualizei o porto como um ponto seguro para os desbravadores. Uma área a se retornar, um local para se permanecer por algum tempo. Mas também pensei nos portos a partir da ideia de "zona de conforto". Bom, sejamos honestos, quem não quer se sentir seguro? Ambientes seguros são familiares e mais ou menos previsíveis, sabemos lidar com aquilo que conhecemos bem. O desafio muitas vezes é lidar com o desconhecido, sobretudo com o desconhecido que nos parece imenso. Algo como o mar, algo como a vida para além da zona de conforto - que nem sempre é confortável e isso é muito importante.

Zona de conforto não é necessariamente uma zona gostosa de se viver, ela é mais uma zona conhecida. Retorno com a questão da previsibilidade, do saber lidar com o conhecido. Mesmo que esse conhecido não seja lá agradável. Lembro do Black Alien na música "Que Nem o Meu Cachorro", de 2019, em que ele traz essa questão em um poderoso verso: "Minha zona de conflito é minha zona de conforto".
O mar, a vida para além do porto, em sua imensidão traz um aspecto de insegurança que nos atravessa. Por vezes é difícil sair do porto, em algumas situações e contextos talvez para alguém eventualmente seja importante retornar a um determinado porto e por lá permanecer por um tempo. A vida não é linear, cada um de nós traz um entendimento do que é o seu porto e o seu mar.
Falando por mim, há certos portos que me deram trabalho deixar e aos quais não retornarei, por outro lado há outros nos quais necessito - aqui e ali - me atracar. E o mar segue lá, com seus mistérios, delícias e dores, sonhos, amores - sua imensidão, nos lembrando que há muito por vir e que a transformação é sempre uma possibilidade. Sejamos, também, barcos.
[e eu só tava lá, presente no porto de Rio Grande.]
por
Igor Jeske

Psicólogo
Músico
Comentários (0)