Racismo Religioso – 14 Viaturas para Fechar um Terreiro em Curitiba
{...} Duvido que 14 viaturas sejam direcionadas para casos de feminicídio, violência contra criança ou para prender os bandidos reais!
Na última semana, Curitiba voltou a expor uma questão recorrente do Brasil, principalmente nos Estados do Sul: a perseguição sistemática às religiões de Matriz Africana. O alvo da vez foi o Terreiro Guerreiros do Vento, dirigido por Talissa Carvalho Huebner. Durante uma gira de Umbanda com pouco mais de uma dezena de participantes, cerca de 14 viaturas e aproximadamente 20 agentes da Polícia Militar, além de equipes da AIFU (Ação Integrada de Fiscalização Urbana) e órgãos municipais como vigilância sanitária, invadiram o espaço religioso sob a justificativa de perturbação do sossego.
A dirigente prova que o Terreiro possui todos os alvarás e permissões exigidos pela prefeitura e que, mesmo assim, sofre perseguições constantes desde sua instalação no bairro Abranches. Segundo a dirigente, o caso é oriundo de constantes denúncias feitas por uma vizinha evangélica. E que as visitas ao Terreiro pela polícia de Curitiba são frequentes ao local.
O episódio escancara aquilo que o Brasil insiste em fingir que não vê: quando a fé é preta, periférica e de Matriz Africana, o tratamento do Estado muda. No mesmo quarteirão do terreiro existe uma Igreja Católica e, na mesma rua, uma Igreja Evangélica. Nenhuma delas, segundo relatos da comunidade, recebe operações espetaculares com dezenas de policiais e viaturas, vigilância sanitária e aparato intimidatório por causa de celebrações religiosas.
A pergunta inevitável é: qual foi o verdadeiro motivo de mobilizar um contingente maior que o número de fiéis presentes numa gira de Umbanda? Duvido que 14 viaturas sejam direcionadas para casos de feminicídio, violência contra criança ou para prender os bandidos reais!

A resposta parece estar menos no barulho e mais no preconceito histórico que acompanha os Terreiros no Brasil há mais de um século. A Umbanda nasceu marcada pela criminalização, pela vigilância policial e pelo racismo institucional. Durante décadas, práticas afro-brasileiras foram tratadas como caso de polícia, enquanto outras manifestações religiosas eram reconhecidas como expressão legítima de fé. O que aconteceu em Curitiba não surge do nada: faz parte de uma tradição estrutural de suspeição automática sobre corpos negros, símbolos africanos, tambores, guias, pontos cantados e espaços de ancestralidade.
É importante dizer o nome correto disso: racismo religioso. Não se trata apenas de intolerância entre crenças diferentes. Trata-se de um mecanismo social e institucional que considera aceitável vigiar, interromper e constranger religiões afro-brasileiras de uma maneira que dificilmente seria aplicada a templos cristãos. Quando uma vizinha “chama a polícia sempre que vê pessoas de branco entrando no terreiro”, como relatou Talissa, o problema deixa de ser convivência urbana e passa a ser perseguição simbólica e cultural.
O mais grave é perceber como operações desse tipo reforçam uma lógica perversa: a de que Terreiros precisam provar constantemente que têm direito de existir. Precisam provar que não fazem barulho demais, que têm licença, que são “ordeiros”, que merecem respeito. Igrejas raramente precisam justificar sua presença dessa forma. A desproporção da ação policial em Curitiba transforma uma denúncia administrativa em espetáculo de intimidação. E quando o Estado escolhe agir assim justamente contra uma religião historicamente perseguida, ele deixa de ser neutro.
O caso do Terreiro Guerreiros do Vento não é isolado como são tratados por aí em todos os cantos do país. Ele dialoga com uma longa história brasileira em que Terreiros foram fechados, imagens sagradas destruídas, praticantes humilhados e tradições demonizadas. O que muda hoje é que essas violências passaram a ser registradas por câmeras, denunciadas publicamente e questionadas por uma sociedade que começa, ainda que lentamente, a reconhecer que liberdade religiosa não pode existir apenas para religiões socialmente aceitas.
Jeff Soares

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