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Dica de Cinema: O Pagador de Promessas (1962)

Uma história que conta a perseguição as Religiões de Matriz Africana no Brasil!

Dica de Cinema: O Pagador de Promessas (1962)
imagem/Reprodução

Há filmes que envelhecem. Outros permanecem vivos porque o país que os produziu continua repetindo os mesmos erros. O Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte e baseado na peça de Dias Gomes, pertence a essa segunda categoria. No elenco conta com Leonardo Villar, Glória Menezes, Dionísio Azevedo, Othon Bastos, Geraldo Del Rey, Antônio Pitanga e Norma Bengell e há mais de seis décadas depois de sua estreia — e de sua histórica vitória da Palma de Ouro no Festival de Cannes — o filme continua doendo porque continua atual.


A história parece simples: Zé do Burro, interpretado de maneira devastadora por Leonardo Villar, atravessa quilômetros carregando uma pesada cruz para pagar uma promessa feita a Santa Bárbara pela cura de seu burro Nicolau. Mas há um detalhe que transforma sua fé em escândalo: a promessa foi feita dentro de um terreiro de Candomblé, onde Santa Bárbara é associada a Iansã. O que deveria ser apenas um gesto de devoção torna-se um tribunal moral.




Zé não é um revolucionário. Não quer desafiar a Igreja, nem criar conflito religioso. Ele apenas acredita. E talvez seja exatamente isso que torna sua tragédia tão cruel: sua fé é sincera demais para um mundo acostumado à hipocrisia. Enquanto políticos, jornalistas, oportunistas e líderes religiosos tentam transformar sua história em espetáculo, ele segue preso à única coisa que possui — sua palavra.


O filme constrói uma crítica brutal à intolerância religiosa brasileira. Não há intolerância caricata e explícita apenas, mas aquela que se esconde atrás de dogmas, burocracias e da falsa defesa da moral. O padre interpretado por Dionísio Azevedo não consegue enxergar a humanidade de Zé porque está aprisionado na necessidade de proteger uma instituição. Para ele, aceitar a promessa significaria reconhecer a mistura entre o Catolicismo popular e as religiões de Matriz Africana — justamente aquilo que o Brasil sempre tentou esconder enquanto, contraditoriamente, se alimentava dessa mistura cultural.


E é impossível assistir ao filme sem perceber como o preconceito contra religiões Afro-Brasileiras continua atravessando décadas. O que O Pagador de Promessas denuncia não ficou preso aos anos 1960. A violência simbólica contra terreiros, o desprezo pelas crenças populares e a tentativa constante de definir qual fé merece respeito continuam presentes no cotidiano brasileiro até hoje.




Mas o filme vai além da religião. Ele fala sobre como a sociedade destrói pessoas simples. Zé do Burro entra em Salvador carregando uma cruz física, mas termina esmagado pelas cruzes invisíveis impostas pelo poder, pela imprensa e pela intolerância. Cada personagem parece querer possuir sua história. Ninguém escuta o homem; todos querem interpretar o símbolo.


A câmera de Anselmo Duarte transforma as escadarias da igreja em um campo de batalha moral. O espaço sagrado deixa de ser acolhimento e vira exclusão. E há algo profundamente doloroso em assistir um homem tão puro sendo tratado como ameaça apenas porque sua fé não cabe dentro das regras oficiais.




O desfecho permanece como um dos mais devastadores da história do cinema brasileiro. Não apenas pela tragédia em si, mas porque ele revela que certas instituições preferem sacrificar seres humanos a admitir contradições. A cruz que Zé carregava deixa de ser somente promessa: torna-se o peso de um país inteiro sobre os ombros de quem ousa acreditar de maneira diferente.


Assistir a O Pagador de Promessas hoje é perceber que a intolerância raramente começa com gritos. Muitas vezes ela nasce do silêncio confortável, da recusa em compreender o outro e da arrogância de quem acredita possuir exclusividade sobre Deus. E talvez seja por isso que o filme ainda emocione tanto: porque Zé do Burro não morre apenas como personagem. Ele representa toda pessoa humilhada por ter uma fé, uma cultura ou uma existência que o poder considera inadequada.


Você pode assistir ao filme no Youtube - Link






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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