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Entrevista: Miguel Borba e "Flor do Campo na Janela" seu novo Álbum de Estúdio

Música Nativista feita com o coração! Confira!

Entrevista: Miguel Borba e "Flor do Campo na Janela" seu novo Álbum de Estúdio
Arquivo Pessoal

O álbum Flor do Campo na Janela, do cantor e compositor Miguel Borba, é uma obra que parece nascer do silêncio das estradas do interior, dos fins de tarde atravessados pelo cheiro do mate e da memória. Com nove faixas e pouco mais de meia hora de duração, o disco constrói uma atmosfera profundamente regional sem se fechar em um tradicionalismo rígido. Pelo contrário: há uma delicadeza contemporânea em cada composição, como se o campo e a cidade dialogassem dentro das canções.


Faixas como “Sabe, Querência…”, “Eu, Saudade” e “Fogo Grande e Mais um Mate” revelam um artista interessado em transformar sentimento em paisagem sonora. O álbum trabalha temas como pertencimento, ausência, afetos e identidade cultural com uma escrita poética que evita exageros. Em vez disso, Miguel Borba aposta na sutileza: as canções caminham devagar, permitindo que cada verso encontre espaço para respirar.


A faixa-título, “Flor do Campo na Janela”, sintetiza bem a proposta do disco. Existe nela uma espécie de contemplação melancólica, quase cinematográfica, que atravessa todo o trabalho. Já músicas como “Quimeras” e “Águas de Setembro” ampliam essa sensação de travessia emocional, misturando lembranças, sonhos e referências da vida simples sem cair na caricatura do regionalismo.


Mais do que um álbum sobre o campo, “Flor do Campo na Janela” parece ser um disco sobre permanências: aquilo que continua vivo dentro das pessoas mesmo quando o mundo muda depressa demais. Miguel Borba entrega um trabalho intimista, honesto e carregado de imagens afetivas, mostrando que ainda existe espaço para músicas feitas com calma, sensibilidade e verdade.


Você pode ouvir o álbum em Spotify – Flor do Campo na Janela.




Em entrevista exclusiva para a aAqui de Casa Web Rádio, Miguel Borba nos conta um pouco mais sobre sua obra. Confira:


1. “Flor do Campo na Janela” tem uma atmosfera muito íntima e contemplativa. Como nasceu a ideia central do álbum?

 A ideia de fazer esse trabalho já vem de muito tempo, Flor do Campo, era o nome da propriedade onde passei muito da minha vida, logo que nasci, fui morar lá e fiquei até a época de escola, vindo morar em Pelotas, mas sempre voltando, minha vida sempre foi entre Pelotas e Canguçu, onde fui fazendo amigos, onde formei minha família, enfim, foi onde tudo aconteceu, minhas maiores parcerias de música, amigos da vida, foi nesse “trecho”.


Há alguns anos atrás, a família se desfez da propriedade e ficou as lembranças, as histórias, a imensa saudade, que, aos poucos, acabou se transformando em poesia, música, enfim…então segui compondo, escrevendo…e chega um momento em que a gente sente aquela “necessidade” de mostrar esse “ofício” a quem aprecia e se identifica, de alguma forma, com todo esse sentimento.


2. O disco parece dialogar muito com memória e pertencimento. Quanto da tua própria vivência existem nessas composições?

Tudo, é a minha vivência, em cada palavra, em cada acorde, é parte fundamental da minha história, pertencimento, como tu falaste. Foi uma época que me “forjou” mesmo, como pessoa, e que é responsável pela minha poesia, eu tenho uma certa dificuldade de escrever sobre um tema que eu não faça parte, de alguma forma, e esse trabalho é isso, um compilado de tudo que eu fiz, falando desse sentimento, desse lugar, das imagens que eu guardo de lá, das pessoas que eu convivi, dos diálogos, dos cavalos, dos cachorros, de cada pequeno detalhe que faz parte dessa memória.


3. Qual foi a primeira música composta para o disco e como ela influenciou o restante do trabalho?

Então, nenhuma das composições foi feita, especificamente, pra esse trabalho, como falei, é muita coisa que eu já tenho sobre o tema “Flor do Campo”, a música-título do álbum, por exemplo, não tinha nome ainda e acabou sendo batizada com todo o sentimento que esse lugar me traz. A janela faz referência às minhas vivências, lembranças, a esse tempo que vivi no campo, que segue municiando a minha arte, de modo geral. A música mais antiga do “disco”, é “Alguma Lida de Campo”, que estava inacabada e finalizei já pensando em ser a primeira, após o recitado, por já começar com “de madrugada…”, como se fosse o amanhecer no campo, é uma milonga bem simples, mas que traz essa energia de “empezar” o dia, romper a barra do dia!


 4. “Eu, Saudade” e “Quimeras” têm uma carga emocional muito forte. Tu acredita que a saudade ainda é um dos sentimentos mais presentes na música brasileira?

Eu acredito sim, porque a saudade cresce, envelhece com a gente, quando se é jovem, não se pensa nisso, felizmente (kkkk), mas ela está ali, latente, esperando o momento de se manifestar e, meu amigo, quando ela te “agarra”, nunca mais te abandona, eu gosto muito da sonoridade da palavra e de tudo que ela envolve, é linda. E acredito sim, a saudade é a própria música brasileira.


 5. Como foi o processo de gravação? Você buscava um som mais cru e orgânico?

Total, eu uso exatamente essa palavra “orgânico”. A poesia, como já conversamos, é viva, eu acredito que esse trabalho tinha que ser “cru, orgânico”, o mais acústico possível , até porque, meu instrumento de compor é o violão, é de onde sai as melodias que faço, então busquei essa sonoridade, assim como a gaita. Aproveitando, não poderia deixar de mencionar aqui, os músicos excepcionais que me entregaram esse resultado, Hígor Estremera, nos violões e baixo e o meu parceiro de tantas, Tony Marques, além do Rui Carlos Ávila, do Estúdio Caminante, outro amigo querido amigo, que foi o responsável pelas gravações, mixagens e tudo mais.


6. O que “Flor do Campo na Janela” representa para ti hoje, depois do álbum pronto?

Tchê… vou dizer que to muito feliz, sabe criança quando ganha um brinquedo novo? (Risos). Mas é isso, te digo sem filtro nenhum, adorei o resultado, é um trabalho feito com a alma mesmo, parece frase feita, mas não é, foi tanto sentimento que botei em cada verso, em cada nota, claro que eu identifico alguns detalhes técnicos que poderiam ter saído melhor, não sou cantor, eu prefiro dizer que sou um “cantador” de coisas que me inspiram, simplesmente, e nesse contexto, fiquei muito satisfeito com o trabalho, foi prazeroso mesmo.


7. Ouvinte do álbum sinto um conceito muito forte, diferente de outros lançamentos do gênero, atualmente. Tu acreditas que ainda existe espaço no cenário atual para discos conceituais e mais sensíveis emocionalmente?

Olha, eu acredito sim, o momento atual chega a ser assustador com a própria tecnologia sendo diariamente substituída, uma por outra, a IA vai tirar muita gente do mercado, mas, sinceramente, não creio que ela consiga substituir a emoção na essência, eu acredito que até poderá separar o joio do trigo, mas a arte feita com a alma, verdadeiramente, vai sempre fazer falta às pessoas, assim como naquele momento terrível da pandemia, ela salvou tanta gente e no fundo, cada um de nós.


8. Qual foi o momento mais difícil — e o mais bonito — durante a produção desse trabalho?

O mais difícil foi a escolha das músicas, eu tenho muita coisa falando do mesmo tema, e eu não tinha “orçamento” pra colocar mais, apesar de que, também acredito que tudo está indo pra esse lado mais minimalista, o tempo das pessoas não é mais o mesmo de uns anos atrás. Dificilmente a gente consegue ficar ouvindo e lendo letras de músicas, como se fazia nos anos 80/90…tudo é muito corrido, então, 8,9 faixas, acho que ficaram bem. E o mais bonito foi, depois da autocrítica de se escutar(risos), ver o trabalho pronto, a capa, feita por uma das minhas norinhas, a Ana Luísa, com a foto de um pedacinho da Flor do Campo, através da janela, me deu muita satisfação.


9. O que você espera que as pessoas sintam ao ouvir o álbum do começo ao fim?

Quando eu posso, sempre digo que o álbum pede isso, pra ser ouvido, sem pressa, do início ao fim, procurei colocar cada obra em seu lugar. Eu espero que as pessoas entendam, se identifiquem, não precisa ser “criado lá fora” como se diz, pra entender, pra sentir o que está sendo dito, o que estou cantando, é sobre o nosso lugar no mundo, nossas lembranças, nossas referências, sobre pertencimento mesmo.


10. Existe alguma faixa do disco que mudou de significado para você ao longo do processo?

Essa pergunta é muito pertinente, inteligente e só poderia vir de alguém que compõe, que conhece as etapas de construção de um trabalho… parabéns, meu amigo, por essa sensibilidade. Então, claro que sempre tem as preferidas da gente né? Mas eu tinha um pouco de receio que a música escolhida pra dar nome ao álbum que, na verdade, ainda não sei quem batizou quem, se ela batizou o trabalho ou foi batizada por ele, mas o receio era de que ela não passasse aos ouvintes a mensagem que eu tentei mandar, quando digo, “faço as pazes com o passado”, estou falando em olhar pra trás e ficar de bem com tudo que fez e faz parte da nossa existência, é agradecer, entender que a vida é isso, é buscar a felicidade na gente mesmo, nos nossos, “pedindo perdão à Deus e choro a falta dos meus…”, é isso, simples assim, mas tenho recebido um retorno incrível das pessoas, eu não imaginava que ela seria das mais tocadas e é.


11. Como você enxerga a cena da música regional contemporânea no Brasil hoje?

Sinceramente, há 40 anos penso a mesma coisa, temos muito que aprender, com o Nordeste, principalmente (risos).


A música que eu faço é a música nativista, que foi um movimento que nasceu nos primeiros festivais, sendo a Califórnia da canção de Uruguaiana, o principal e que acabou “moldando” este movimento, mas, claro, que a cena regional não se resume ao nativismo, a nossa música é riquíssima, não só regionalmente, mas em todos os estilos, o rock gaúcho mesmo, é referência pra todo o rock nacional, o samba, a MPB, enfim, mas pra não fugir da pergunta, eu sinto falta de mais união dentro do regionalismo gaúcho, o movimento está muito voltado aos festivais, acho que a música “nativa”, mereceria uma mostra, ou algo assim, pra que fosse mais difundida e não seguir sendo restringida a concorrência que é inerente aos festivais. mas tá tudo certo, não é uma queixa, é uma opinião, me aflige um pouco que, em função das triagens, muitas obras chegam a ficar 10/12 anos guardadas, pra se manterem inéditas, quanta coisa boa acaba se perdendo no caminho.


12. Depois de “Flor do Campo na Janela”, quais caminhos musicais você pretende explorar?

Eu tenho vontade de “botar o bloco na rua”, mostrar o trabalho mesmo, mas a gente sabe das dificuldades que isso envolve, é preciso um bom projeto, que viabilize a contratação de músicos, transporte, toda a logística, não dá pra se pensar mais de forma amadora, porque os custos não permitem a romantização de se fazer só pela emoção, pela “parceria” com os amigos de estrada e de vida mesmo, então estamos aí, tentando captar recursos, tentando encaixar algum projeto pra mostrar este e pensar em outros. Eu tenho feito coisas novas, talvez esse álbum tenha também um efeito de "desapego", de me fazer mudar um pouco o olhar pra algumas outras direções, sem perder a essência, logicamente, mas eu tenho sentido um pouco isso.


OUÇA - Flor do Campo na Janela 


Miguel, fico muito feliz por esse nosso papo sobre música, teu trabalho é muito bonito e tocou profundamente meu coração, será sempre um prazer em te receber na Aqui de Casa Web Rádio que a partir de hoje já começa a tocar duas canções do disco na programação geral! Obrigado pela disponibilidade e mais uma vez essa Casa é tua! 






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador


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