Likes, Luxo e Silêncio: O Vazio Social dos Grandes Influenciadores
[...] neutralidade social quase sempre favorece quem já está confortável dentro da estrutura.
Nunca houve tantas pessoas com tanto alcance quanto agora. Um único story pode alcançar milhões em segundos, influenciar comportamentos, impulsionar tendências, moldar opiniões políticas e até alterar a forma como uma geração inteira enxerga o mundo. Ainda assim, boa parte dos maiores influenciadores digitais brasileiros escolhe usar esse poder quase exclusivamente para vender produtos, alimentar vaidades e transformar a própria vida em espetáculo permanente — enquanto questões sociais urgentes seguem ignoradas, relativizadas ou reduzidas a campanhas superficiais de engajamento.
Figuras como Virginia Fonseca, Carlinhos Maia e Neymar representam bem essa lógica contemporânea da influência desvinculada de responsabilidade social. São celebridades que acumulam milhões de seguidores, contratos milionários e um poder de comunicação que muitas emissoras de televisão já não possuem mais. Mas o que fazem, de fato, com esse alcance?
Virginia construiu um império digital baseado no consumo constante, na exposição familiar e na publicidade ininterrupta. Carlinhos Maia transformou a própria intimidade em entretenimento lucrativo, enquanto vendia uma ideia de “humildade” cuidadosamente performada para as redes. Neymar, por sua vez, tornou-se não apenas um astro do futebol, mas uma máquina publicitária global. E foi justamente após ser convocado para defender a seleção brasileira na próxima Copa do Mundo — símbolo máximo da paixão popular do país — que voltou a divulgar plataformas de apostas online, em vez de celebrar a convocação junto aos colegas, como fizeram outros astros do futebol internacional ― mesmo diante do crescimento alarmante do vício em jogos e do endividamento de milhares de brasileiros.
A questão não é exigir que celebridades se tornem militantes sociais. O problema está na escolha consciente de ignorar as desigualdades brutais do país enquanto lucram diretamente da atenção de uma população vulnerável economicamente e emocionalmente. Muitos desses influenciadores se escondem atrás do discurso de que “não gostam de política” ou de que “cada um tem sua opinião”, mas neutralidade social quase sempre favorece quem já está confortável dentro da estrutura.
Enquanto artistas independentes, coletivos culturais, ativistas periféricos e movimentos sociais lutam para conseguir visibilidade mínima para discutir racismo, fome, violência contra mulheres, LGBTQIAPN+fobia, intolerância religiosa e destruição ambiental, grandes influenciadores frequentemente preferem manter seus perfis como vitrines de luxo, ostentação e publicidade. O engajamento aparece rápido para divulgar uma nova mansão, uma harmonização estética, uma festa milionária ou uma casa de apostas; mas desaparece quando o assunto envolve responsabilidade coletiva.
O fenômeno se torna ainda mais preocupante porque muitos desses criadores de conteúdo construíram suas carreiras justamente a partir da identificação popular. Vieram de origens humildes, se apresentaram como “gente comum”, usaram a narrativa da superação para conquistar o público — mas, uma vez no topo, passaram a reproduzir exatamente os valores elitistas que antes pareciam combater. A pobreza vira memória vendável. A periferia vira estética. O sofrimento social vira storytelling de sucesso individual.
Também existe uma estratégia econômica por trás desse silêncio. Grandes marcas preferem influenciadores “seguros”, que não gerem desconforto político ou social. Defender direitos humanos, denunciar injustiças ou apoiar causas progressistas ainda significa perder contratos, seguidores conservadores e oportunidades comerciais. Assim, muitos optam pelo caminho mais lucrativo: parecer carismático sem assumir posicionamentos reais.
Mas influência sem responsabilidade social é apenas publicidade disfarçada de carisma.
Em uma sociedade profundamente desigual como a brasileira, possuir milhões de seguidores e optar pelo silêncio diante de temas fundamentais também é uma escolha política. E talvez a maior crítica a esses influenciadores não seja aquilo que dizem — mas aquilo que poderiam dizer e escolhem não dizer.
Jeff Soares

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