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Um Recorte Sobre o racismo cotidiano

[...] Um espaço criado para refletirmos sobre a violência contra a mulher tornou-se palco de outra violência cotidiana: a exclusão racial.

Um Recorte Sobre o racismo cotidiano
Arquivo Pessoal

Os bancos vermelhos espalhados pelas cidades nasceram como símbolo de alerta. Eles existem para lembrar mulheres silenciadas pela violência, interrompidas pelo feminicídio, apagadas por uma sociedade que ainda insiste em controlar corpos, vozes e existências femininas. São bancos que deveriam provocar empatia, consciência e humanidade. Mas, na rodoviária de Pelotas, um desses bancos acabou revelando outra ferida igualmente profunda: o racismo.


A cena talvez tenha durado poucos minutos, mas carrega séculos dentro dela. Uma senhora branca incomodada pela presença de uma senhora negra sentada ao seu lado. Nenhuma palavra precisa ser dita quando o preconceito já aprendeu a se comunicar pelos gestos, pelos olhares, pelos silêncios constrangedores. O desconforto foi tão evidente que a mulher negra preferiu levantar-se e procurar outro lugar. Mais uma vez, foi ela quem precisou sair. Mais uma vez, foi o corpo negro que entendeu o recado antes mesmo que ele fosse verbalizado.


Existe algo de profundamente simbólico e cruel nisso acontecer justamente em um banco vermelho. Um espaço criado para refletirmos sobre a violência contra a mulher tornou-se palco de outra violência cotidiana: a exclusão racial. Porque o racismo também empurra mulheres para longe. Também constrange, humilha, reduz e desumaniza. Também faz com que mulheres negras sintam que certos espaços nunca foram feitos para elas.


E talvez seja essa a reflexão mais dolorosa: não existe combate verdadeiro à violência contra a mulher sem enfrentar o racismo. Mulheres negras vivem o peso de múltiplas opressões ao mesmo tempo. São as maiores vítimas da violência estrutural, do abandono social, da invisibilidade e do preconceito diário que se manifesta nas pequenas cenas aparentemente banais — como um banco dividido em uma rodoviária.


O problema do racismo é justamente esse: ele raramente aparece apenas nos grandes escândalos. Ele vive nos detalhes. No assento evitado. No olhar atravessado. No silêncio hostil. Na pessoa que se sente autorizada a decidir, mesmo sem palavras, quem pode ou não ocupar o mesmo espaço que ela.


Os bancos vermelhos deveriam nos ensinar sobre ausência. Sobre mulheres que não estão mais aqui porque lhes arrancaram a vida. Mas talvez também precisem nos ensinar sobre presença: sobre quem ainda hoje é tratado como se incomodasse apenas por existir.


Eu sou um homem negro, que observou a cena e posso afirmar que me sinto profundamente desconfortável com isso.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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