O Amor como Prática de Liberdade: O que bell hooks e o Feminismo me Ensinaram
[...] O amor é uma ação, uma escolha diária e, acima de tudo, uma prática política.
Por muito tempo, eu compreendi o amor da forma como a indústria cultural me vendeu: uma pessoa que chega para completar o que faltava em mim e que eu não poderia ficar sozinha. Era aquela velha lógica de aceitar migalhas ou tolerar excessos em nome de um romantismo idealizado. Mas tudo mudou quando a teoria feminista e, especificamente, as palavras de bell hooks cruzaram o meu caminho. Aprendi que fomos colonizados para confundir obsessão, posse e apego com afeto. Hooks me ensinou que o amor não é um sentimento passivo que simplesmente acontece. O amor é uma ação, uma escolha diária e, acima de tudo, uma prática política.
Politizar o amor pode soar estranho para alguns, mas, na verdade, é o que devolve a ele a sua dignidade. O feminismo me tirou da posição de espera e me colocou no papel de agente da minha própria vida afetiva. A primeira grande lição foi entender que onde há dominação, controle ou submissão, o amor não pode existir.
Na prática, o feminismo me ensinou isso quando precisei dizer o primeiro "não" em um relacionamento onde o parceiro sutilmente tentava controlar a roupa que eu usava ou questionava minhas saídas com minhas amigas sob o pretexto de ciúme e cuidado. O patriarcado ensina às mulheres que amar é sinônimo de anulação e sacrifício. O feminismo subverteu isso em mim, me mostrando que o amor exige igualdade, reciprocidade e o respeito absoluto à individualidade.
Outro ponto fundamental foi reaprender sobre o amor-próprio. Antes, eu buscava desesperadamente a validação externa; se o outro não me quisesse, parecia que eu perdia o meu valor. Quando bell hooks pontua que o amor é o compromisso com o crescimento mental, espiritual e físico de si mesmo e do outro, percebi que eu não estava me nutrindo. O feminismo me possibilitou um novo olhar. O autoamor deixou de ser um clichê de autocuidado de internet e passou a ser uma estratégia de sobrevivência: estabelecer limites, não aceitar menos do que respeito e bancar as minhas próprias escolhas econômicas e profissionais.
Por fim, o feminismo alargou os horizontes do meu afeto. O romance heteronormativo deixou de ser o único centro de gravidade da minha vida. Aprendi a olhar para as minhas amigas não como concorrentes, mas como redes de apoio fundamentais. O amor se materializa naquele grupo de WhatsApp onde desabafamos sobre o trabalho, no café de domingo à tarde para chorar um término, ou na mobilização comunitária para ajudar uma companheira que está passando por dificuldades.
Amar, nos moldes de bell hooks, é uma postura revolucionária. Em uma cultura que lucra com o nosso isolamento, com a nossa insegurança e com a nossa exaustão, escolher o amor verdadeiro é um ato de rebeldia. É decidir, conscientemente, construir espaços de acolhimento, verdade e emancipação seja para mim e para todos e todas aqueles/as que caminham ao meu lado.
Roberta Luzzardi

Educadora. Defensora do Feminismo Interseccional,
da Educação Pública e da Agroecologia.
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