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Entre a Espera e o Afeto: O Sistema de Adoção no Brasil

[...] O tempo da Justiça raramente acompanha o tempo da infância.

Entre a Espera e o Afeto: O Sistema de Adoção no Brasil
Imagem Internet

No Brasil, milhares de crianças e adolescentes vivem entre abrigos, casas de acolhimento e decisões judiciais que parecem nunca chegar ao fim. Enquanto isso, famílias inteiras aguardam durante anos pela possibilidade de adotar. O paradoxo do sistema de adoção brasileiro está justamente aí: há mais pretendentes cadastrados do que crianças disponíveis para adoção, mas ainda assim a fila anda lentamente e o encontro entre quem deseja acolher e quem precisa de uma família continua atravessado por burocracia, preconceitos e desigualdades.


O sistema brasileiro de adoção é regulamentado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e organizado nacionalmente pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), coordenado pelo Conselho Nacional de Justiça. Em teoria, o processo busca garantir proteção integral às crianças e adolescentes. Na prática, porém, muitos acabam passando anos institucionalizados antes de terem a chance de viver em um ambiente familiar estável.


Grande parte dos pretendentes à adoção procura um perfil muito específico: bebês, geralmente brancos, sem irmãos e sem problemas de saúde. Já a maioria das crianças disponíveis para adoção é composta por meninos e meninas mais velhos, grupos de irmãos, crianças negras ou adolescentes. Existe, portanto, um abismo entre o desejo idealizado da adoção e a realidade das infâncias abandonadas no país.


Essa diferença revela também marcas profundas do racismo estrutural e da cultura brasileira. Crianças negras costumam permanecer mais tempo nos abrigos e têm menos chances de serem adotadas. Adolescentes enfrentam ainda mais resistência. Muitas vezes, o sistema parece reproduzir a lógica social da exclusão: quanto mais distante do padrão considerado “ideal”, menor a possibilidade de acolhimento.




Outro ponto delicado é a lentidão dos processos judiciais. Em muitos casos, crianças permanecem anos aguardando a destituição do poder familiar, mesmo quando já vivem em situação de abandono, violência ou negligência extrema. A demora, embora muitas vezes motivada pela tentativa legítima de reintegrar a criança à família biológica, acaba criando um limbo emocional. O tempo da Justiça raramente acompanha o tempo da infância.


Há ainda o drama vivido por adolescentes que deixam os abrigos ao completar 18 anos sem nunca terem sido adotados. Muitos saem sem estrutura financeira, apoio psicológico ou rede de proteção social. O resultado é um cenário de vulnerabilidade que pode levar à pobreza extrema, exploração e violência.


Apesar dos problemas, especialistas e grupos de apoio defendem que a adoção precisa deixar de ser tratada como um ato de caridade. A adoção é, antes de tudo, um direito da criança à convivência familiar. Isso significa compreender que o centro do processo não deve ser o desejo dos adultos de “ter um filho perfeito”, mas a necessidade urgente de garantir afeto, segurança e pertencimento para crianças e adolescentes reais, com histórias complexas e marcas profundas.


Nos últimos anos, campanhas de adoção tardia e de incentivo à adoção interracial têm ajudado a ampliar o debate. Também cresceram iniciativas de preparação emocional para famílias adotivas, buscando reduzir devoluções — uma das violências mais cruéis que podem atingir crianças já marcadas pelo abandono.


Falar sobre adoção no Brasil é falar sobre infância, desigualdade, racismo, abandono e responsabilidade coletiva. É entender que nenhuma criança deveria crescer acreditando que não foi escolhida por ser “velha demais”, negra demais ou traumatizada demais para receber amor.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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