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Morre Pedro Ortaça, Ícone da Cultura Gaúcha, aos 83 Anos

O Silêncio da Voz do último Tronco Missioneiro

Morre Pedro Ortaça, Ícone da Cultura Gaúcha, aos 83 Anos
Foto: Edgar Cavalheiro

O Rio Grande do Sul amanheceu mais silencioso na última sexta-feira (29). Morreu, aos 83 anos, o cantor, compositor e violonista Pedro Ortaça, uma das maiores referências da música regional gaúcha e o último representante vivo dos chamados Troncos Missioneiros, grupo que ajudou a redefinir a identidade cultural do Estado a partir da valorização das raízes missioneiras, indígenas e populares.


Internado em um hospital de Ijuí, no Noroeste gaúcho, Ortaça enfrentava uma série de problemas de saúde nos últimos anos. Segundo familiares, o artista sofreu complicações após uma cirurgia e teve paradas cardiorrespiratórias durante a madrugada, não resistindo.


Nascido em São Luiz Gonzaga, nas Missões, em 1942, Pedro Ortaça construiu uma trajetória que ultrapassou o universo da música regional para se tornar patrimônio cultural do Rio Grande do Sul. Sua obra sempre esteve profundamente ligada à memória histórica do povo missioneiro, às influências indígenas guaranis, ao cotidiano do homem do campo e às transformações sociais da região sul do país.


Ao lado de Noel Guarany, Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun, formou o grupo conhecido como Troncos Missioneiros, responsável por criar uma nova linguagem dentro da música nativista. Mais do que cantar paisagens e tradições, esses artistas introduziram críticas sociais, reflexões políticas e um olhar mais profundo sobre a identidade do povo gaúcho. O álbum Troncos Missioneiros, lançado em 1988, tornou-se uma obra fundamental da cultura regional brasileira.




Entre suas canções mais conhecidas estão “Timbre de Galo”, “Bailanta do Tibúrcio”, “Queixo Duro” e diversas composições que se transformaram em símbolos da música missioneira. Sua voz grave e marcante carregava não apenas melodias, mas uma narrativa histórica sobre o Rio Grande do Sul profundo, muitas vezes ignorado pelos grandes centros culturais do país.


Ao longo de décadas, Pedro Ortaça tornou-se uma das principais figuras do tradicionalismo gaúcho. Em 2024, foi escolhido patrono dos Festejos Farroupilhas, reconhecimento que simbolizou a importância de sua contribuição para a preservação e difusão da cultura regional. Também recebeu homenagens acadêmicas e culturais por seu papel na valorização da herança missioneira. Mesmo enfrentando limitações físicas e problemas de saúde, Ortaça permaneceu ligado à música até os últimos anos. Em 2025, lançou “Pena Guarany”, em parceria com seu filho Gabriel Ortaça, reafirmando sua conexão com as raízes missioneiras e sua disposição de manter viva uma tradição construída ao longo de mais de cinco décadas de carreira.


A morte de Pedro Ortaça marca o fim de uma geração de artistas que ajudou a construir uma identidade cultural própria para o Sul do Brasil, em uma época em que a música regional servia como instrumento de memória, resistência e pertencimento. Seu legado permanece vivo nas rodas de violão, nos galpões, nos festivais nativistas e na memória coletiva de um povo que encontrou em suas canções uma forma de contar a própria história. Com sua partida, encerra-se um capítulo fundamental da cultura missioneira, mas permanece acesa a chama de uma obra que seguirá ecoando pelas fronteiras do Rio Grande. 






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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