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Saúde Mental Também é Direito do Povo de Axé

Quem cuida dessas pesssoas?

Saúde Mental Também é Direito do Povo de Axé
Imagem Internet/Pixabay

Falar sobre saúde mental da população negra e das pessoas de religiões de Matriz Africana exige coragem para tocar em uma ferida que quase sempre é ignorada: o acesso elitizado à psicologia e à psicanálise. Em um país onde o racismo estrutural atravessa todas as relações sociais, inclusive o cuidado emocional, ainda é comum encontrar atendimentos terapêuticos com valores completamente inacessíveis para a maior parte do povo de Axé.


Enquanto muitos discursos falam sobre acolhimento, escuta e empatia, na prática, o cuidado psicológico continua sendo tratado como privilégio de poucos. Sessões caras, ausência de políticas de atendimento popular e pouca sensibilidade às realidades culturais da população negra acabam afastando justamente quem mais precisa ser cuidado.


As pessoas de Axé carregam, diariamente, o peso da intolerância religiosa, do racismo, da violência simbólica e do apagamento cultural. São mães e pais de santo, ekedes, ogãs, yalorixás, babalorixás e filhos de santo que dedicam suas vidas ao cuidado espiritual e emocional de outras pessoas. Escutam dores, acolhem angústias, orientam caminhos, oferecem afeto, proteção e equilíbrio comunitário. Porém, quem cuida dessas pessoas?


Existe uma contradição cruel em uma sociedade que consome símbolos da cultura afro-brasileira, mas não garante dignidade nem acesso à saúde mental para os corpos negros que sustentam essas tradições. O sofrimento psicológico da população de terreiro muitas vezes é silenciado porque ainda existe preconceito dentro dos próprios espaços terapêuticos. Muitos profissionais desconhecem as religiões de matriz africana, reproduzem estereótipos ou tratam a espiritualidade afro-brasileira como algo exótico, irracional ou problemático.


Além disso, o debate sobre saúde mental raramente considera que pobreza, racismo e intolerância religiosa adoecem. E adoecem profundamente. Não basta defender terapia acessível apenas em discursos acadêmicos ou campanhas nas redes sociais. É necessário construir práticas reais de inclusão: atendimento social, escuta comunitária, projetos gratuitos, clínicas populares e profissionais preparados para acolher pessoas de religiões de Matriz Africana sem julgamento e sem preconceito.


A saúde mental não pode continuar sendo um luxo branco e elitizado. Cuidar do psicológico das pessoas de Axé também é uma forma de combater o racismo religioso e promover justiça social. Quem dedica a vida ao cuidado do outro também precisa ser cuidado, ouvido e acolhido com dignidade.


Porque resistência sem cuidado também cansa. E o povo de Axé merece viver para além da sobrevivência.






Liziane Borges

Psicopedagoga

Professora

Apresentadora

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