O Mito do Empoderamento Individual: Por Que o Termo Precisa Voltar Às Suas Raízes Coletivas?
[...] O verdadeiro empoderamento não se resume a "mudar a própria mente"; ele exige mudar as estruturas da sociedade.
Nas últimas décadas, a palavra "empoderamento" virou um verdadeiro curinga no vocabulário popular. Ela estampa campanhas publicitárias, títulos de livros de autoajuda, discursos corporativos e legendas de redes sociais. Consome-se o "manual da mulher empoderada" ou o "guia do empreendedor empoderado" como se o termo fosse um estado de espírito, uma postura estética ou uma conquista puramente individual.
No entanto, há um esvaziamento perigoso nessa romantização. Quando transformamos o empoderamento em uma jornada solitária de superação pessoal, despolitizamos o seu significado original e, pior, transferimos para o indivíduo a culpa por opressões que são, na verdade, sistêmicas.
O verdadeiro empoderamento não se resume a "mudar a própria mente"; ele exige mudar as estruturas da sociedade.
O movimento feminista é um dos campos onde essa individualização mais se faz notar. O chamado "feminismo liberal" ou pop muitas vezes foca na figura da mulher bem-sucedida, que conquistou cargos de liderança, independência financeira e que "venceu o sistema". Embora essas trajetórias sejam legítimas e inspiradoras, elas não dão conta da realidade da maioria das mulheres.
O feminismo, em sua essência, é um movimento de libertação coletiva. Se uma mulher ascende a um posto de poder, mas a estrutura de salários desiguais, a falta de creches públicas e a tripla jornada de trabalho continuam a esmagar a maioria das mulheres (especialmente as negras e periféricas), não houve empoderamento real; houve apenas uma exceção à regra.
O empoderamento de uma mulher não pode ser desvinculado da emancipação de todas as outras. Trata-se de abrir portas e questionar por que as portas estavam trancadas, e não apenas de comemorar quem conseguiu arrombá- las sozinha.
Essa mesma lógica se aplica a outros grupos historicamente vulnerabilizados, como a população negra, os povos indígenas, a comunidade LGBTQIA+ e as pessoas com deficiência (PCDs).
Dizer a um jovem negro da periferia que ele só precisa de "foco e mentalidade empreendedora" para se empoderar é ignorar o racismo estrutural que dita as abordagens policiais, o acesso ao mercado de trabalho e a distribuição de renda. Isso vale para pessoas com deficiência: de nada adianta o discurso da resiliência individual se as cidades e os locais de trabalho não oferecem acessibilidade básica.
Para esses grupos sociais, o empoderamento só acontece por meio de: acesso a direitos básicos; políticas públicas e organização coletiva.
O conceito de empoderamento (originalmente traduzido do inglês empowerment e profundamente influenciado pelo pensamento do educador brasileiro Paulo Freire) nasceu justamente para descrever o processo pelo qual classes oprimidas adquirem consciência de sua situação e se organizam para transformar a realidade. É uma ação política, de baixo para cima.
Se o empoderamento virar apenas sinônimo de autoestima, ele perde sua força de transformação social. A autoestima nos ajuda a caminhar, mas é o empoderamento coletivo que altera o mapa do caminho.
Precisamos resgatar o sentido político do termo. Uma pessoa se torna mais forte quando faz parte de um coletivo que exige direitos, quando compreende que suas dores e dificuldades não são falhas pessoais, mas reflexos de um sistema desigual.
O empoderamento, portanto, não é um destino individual de sucesso. É um pacto de solidariedade. Só estaremos de fato empoderados quando nossas vitórias individuais se transformarem em ferramentas para a libertação coletiva.
Roberta Luzzardi

Educadora. Defensora do Feminismo Interseccional,
da Educação Pública e da Agroecologia.
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