O Feminino sob Vigilância: Como a Sociedade Controla às Mulheres
[...] A sociedade parece acreditar que o corpo da mulher é público, disponível para julgamentos, comentários e imposições.
A hostilidade contra as mulheres raramente se apresenta apenas em agressões visíveis ou discursos abertamente violentos. Na maior parte do tempo, ela se manifesta de forma silenciosa, naturalizada e até romantizada dentro das relações sociais. É justamente isso que torna o machismo tão perigoso: sua capacidade de se esconder em comportamentos considerados “normais” pela sociedade.
Na minha percepção, existe uma cobrança permanente para que as mulheres estejam sempre adequadas a um padrão impossível. O corpo feminino é constantemente observado, comentado e avaliado. Se a mulher engorda, é criticada; se emagrece, também. Se usa roupas curtas, é julgada pela exposição do corpo; se escolhe roupas discretas, é chamada de “apagada”. Parece que nunca existe liberdade real sobre a própria aparência, porque sempre haverá alguém disposto a opinar, controlar ou definir o que seria o “correto”.
A pressão estética é uma das formas mais cruéis dessa violência silenciosa. Ela atinge não apenas a autoestima, mas também a saúde mental de milhares de mulheres que crescem acreditando que precisam ser perfeitas para serem aceitas. Redes sociais, programas de televisão, propagandas e até ambientes familiares reforçam diariamente a ideia de que o valor feminino está ligado à aparência. Muitas meninas aprendem desde cedo que precisam ser bonitas antes mesmo de aprenderem a ser livres.
Além disso, percebo que o controle emocional também faz parte dessa estrutura hostil. Mulheres frequentemente são chamadas de “dramáticas”, “histéricas” ou “sensíveis demais” quando expressam sentimentos legítimos. Existe uma tentativa constante de invalidar suas emoções, como se elas precisassem estar sempre calmas, compreensivas e emocionalmente disponíveis para todos. Enquanto isso, comportamentos agressivos masculinos muitas vezes são vistos como naturais ou aceitáveis.

Outro ponto que considero extremamente preocupante é a vigilância sobre o corpo feminino. A sociedade parece acreditar que o corpo da mulher é público, disponível para julgamentos, comentários e imposições. Isso aparece em situações cotidianas: na roupa que ela usa, no cabelo que escolhe, na maternidade, na sexualidade e até no envelhecimento. A mulher é ensinada o tempo inteiro a vigiar a si mesma para não incomodar, não provocar e não ocupar espaço demais.
O mais alarmante é que muitas dessas violências foram tão normalizadas que acabam sendo reproduzidas até por outras mulheres, como consequência de uma cultura machista profundamente enraizada. Por isso, discutir essas questões é fundamental. Reconhecer essas formas sutis de hostilidade é um passo importante para romper padrões que adoecem emocionalmente tantas mulheres.
Na minha opinião, combater o machismo não significa apenas denunciar agressões explícitas, mas também questionar essas estruturas silenciosas que controlam, limitam e pressionam o feminino diariamente. Enquanto a sociedade continuar tratando a liberdade da mulher como algo que precisa ser vigiado e regulado, ainda estaremos longe de viver em uma realidade verdadeiramente justa e igualitária.
Liziane Borges

Psicopedagoga
Professora
Apresentadora
Colunista
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