Resiliência Sem Prevenção? O Risco de Naturalizar às Tragédias Climáticas!
[...] Resiliência e prevenção não são escolhas opostas. São responsabilidades complementares.
Com esta declaração “não temos como evitar eventos climáticos, mas podemos investir em resiliência”, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, toca em uma verdade parcial e foge das responsabilidades. De fato, não é possível impedir que chuvas intensas, secas prolongadas ou ondas de calor ocorram. Os fenômenos naturais continuarão existindo. O problema está no que essa frase deixa de dizer.
Quando uma autoridade pública enfatiza apenas a resiliência, corre-se o risco de transmitir a ideia de que as tragédias climáticas são inevitáveis e que à sociedade resta apenas aprender a conviver com elas. No entanto, embora não seja possível evitar a chuva, é perfeitamente possível reduzir seus impactos. E é justamente essa diferença que precisa estar no centro do debate.
As enchentes que devastaram cidades gaúchas em 2024 não foram causadas apenas pela intensidade das precipitações. Décadas de ocupação desordenada, destruição de áreas de preservação, insuficiência de sistemas de drenagem, falta de manutenção de estruturas de contenção e falhas históricas de planejamento urbano ampliaram os danos. Em outras palavras, a natureza produziu o evento extremo, mas decisões humanas contribuíram para transformar o fenômeno em catástrofe.
Investir em resiliência é fundamental. Significa construir cidades mais preparadas, fortalecer a defesa civil, modernizar sistemas de alerta e garantir infraestrutura capaz de suportar eventos severos. Porém, a resiliência não pode ser apresentada como substituta da prevenção. Uma sociedade resiliente é aquela que também trabalha para reduzir vulnerabilidades antes que o desastre aconteça.
Há ainda uma questão política relevante. O discurso da resiliência costuma ganhar força após a tragédia, quando a reconstrução se torna inevitável. Já a prevenção exige investimentos permanentes, muitas vezes invisíveis aos olhos do eleitorado. Recuperar matas, restringir construções em áreas de risco, revisar planos diretores e ampliar obras de drenagem raramente rendem manchetes tão impactantes quanto a inauguração de uma ponte ou a entrega de moradias após uma enchente.
Por isso, a frase do governador merece reflexão séria e responsável. Se interpretada de forma isolada, pode reforçar uma visão conformista diante da crise climática. O desafio não é apenas resistir aos desastres quando eles chegam, mas criar condições para que eles provoquem menos mortes, menos perdas materiais e menos sofrimento.
Resiliência e prevenção não são escolhas opostas. São responsabilidades complementares. Governos que apostam apenas em uma delas correm o risco de preparar a população para suportar tragédias que poderiam ser muito menos devastadoras.
Jeff Soares

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