O Patriotismo de Conveniência
É difícil imaginar uma contradição maior.
Há personagens na política brasileira que parecem ter transformado a contradição em método. Passam anos enrolados na bandeira nacional, discursando sobre soberania, independência e amor à pátria. Mas, quando os interesses familiares entram em risco, a nação deixa de ser prioridade e passa a ser apenas uma peça descartável no tabuleiro político.
A condenação de Eduardo Bolsonaro pelo STF, com pena de quatro anos e dois meses de prisão e oito anos de inelegibilidade, recoloca uma questão incômoda no centro do debate público: até onde alguém pode ir para defender um projeto político ou familiar antes de cruzar a linha dos interesses nacionais? Segundo o entendimento unânime da Corte, o ex-deputado atuou para buscar pressão internacional sobre instituições brasileiras, numa tentativa de influenciar o desfecho dos processos envolvendo seu pai, Jair Bolsonaro.
O caso possui uma ironia difícil de ignorar.
Durante anos, setores da extrema direita brasileira acusaram adversários políticos de "entregar o Brasil", de conspirar com organismos internacionais ou de agir contra os interesses nacionais. O discurso nacionalista foi uma das principais bandeiras do bolsonarismo. Entretanto, a acusação que resultou na condenação de Eduardo Bolsonaro aponta justamente para uma articulação junto ao governo dos Estados Unidos para pressionar autoridades brasileiras por meio de sanções e medidas econômicas que poderiam afetar o próprio país.
É difícil imaginar uma contradição maior.
O patriotismo, afinal, parece funcionar para alguns como uma roupa de ocasião: veste-se em comícios, entrevistas e redes sociais, mas pode ser guardado no armário quando os interesses particulares exigem outro figurino.
A condenação fala sobre si própria, as falas que marcaram a trajetória recente de Eduardo Bolsonaro revelam uma visão preocupante da democracia. Ao longo dos últimos anos, tornou-se comum a tentativa de deslegitimar instituições, questionar decisões judiciais sem apresentar provas concretas e alimentar a ideia de que qualquer decisão desfavorável seria resultado de perseguição política. Trata-se de uma estratégia conhecida: quando a realidade não confirma as expectativas, coloca-se sob suspeita o árbitro, as regras e o próprio jogo.
Nenhuma democracia saudável pode sobreviver quando seus atores políticos aceitam as instituições apenas enquanto elas lhes são favoráveis.
Isso não significa que tribunais sejam infalíveis ou estejam acima de críticas. Pelo contrário. A crítica às instituições é parte fundamental da vida democrática. Mas existe uma diferença profunda entre questionar decisões e trabalhar para constranger ou pressionar o funcionamento do sistema por meio de atores estrangeiros.
A história registra inúmeros exemplos de países que pagaram caro quando disputas internas passaram a depender da interferência de potências externas. Em geral, quem perde não é um partido ou uma família política. Quem perde é a própria soberania nacional.
Talvez a principal lição desse episódio seja justamente a exposição de um fenômeno cada vez mais comum: a substituição dos princípios pelos interesses. O amor à pátria, a defesa das instituições, a liberdade e a democracia deixam de ser valores universais e passam a valer apenas quando beneficiam determinado grupo.
Quando isso acontece, o patriotismo deixa de ser um compromisso coletivo e se transforma em mera ferramenta de propaganda.
E a bandeira, que deveria representar todos os brasileiros, acaba servindo apenas para esconder contradições que já não conseguem permanecer invisíveis.
Jeff Soares

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