O Feminismo E As Armadilhas da Identidade: Como O Mercado Fragmentou Nossas Lutas
[...] O risco para o feminismo é que o conceito de "feminino", que antes movia multidões às ruas por direitos civis, trabalhistas e reprodutivos, corre o risco de ser engolido por essa lógica individualista.
O debate atual sobre as pautas de gênero vive um grande dilema: de um lado, há a urgência legítima de combater o machismo e as opressões históricas contra as mulheres; de outro, vemos o movimento se dividir em tantos subgrupos que a sua força coletiva parece estar enfraquecendo. Para entender como chegamos aqui, o livro As Armadilhas da Identidade, do historiador Asad Haider, nos oferece uma explicação essencial: o chamado "identitarismo" não surgiu do nada, mas é um reflexo direto das mudanças econômicas do capitalismo atual.
Para compreender o impacto disso no feminismo, precisamos olhar para como o mercado de trabalho mudou nas últimas décadas. No passado, as pessoas trabalhavam juntas em grandes fábricas, tinham sindicatos fortes e uma identidade de classe unida, o que dava a sensação de que todos lutavam pelo mesmo objetivo. Hoje, no modelo neoliberal, esse cenário foi desfeito por meio da terceirização, da flexibilização de direitos e do culto à ideia de que cada um deve ser o "empreendedor de si mesmo". Quando essa solidariedade entre os trabalhadores foi destruída pelo sistema, sobrou apenas o indivíduo isolado, competindo contra todos em um mercado feroz. Sem a união pelo trabalho, as pessoas passaram a buscar acolhimento e pertencimento em suas identidades específicas, como o gênero, a raça e a orientação sexual.
O risco para o feminismo é que o conceito de "feminino", que antes movia multidões às ruas por direitos civis, trabalhistas e reprodutivos, corre o risco de ser engolido por essa lógica individualista. O foco central muitas vezes deixa de ser a transformação do sistema e passa a ser apenas o reconhecimento individual. Uma das maiores armadilhas desse processo é a cooptação das pautas de gênero pelo próprio mercado, gerando o que chamamos de feminismo liberal. O sistema celebra quando uma mulher chega à presidência de uma grande empresa, mas a estrutura opressiva em si não muda. Enquanto uma mulher comemora no topo da pirâmide, a base dessa mesma estrutura continua sendo sustentada por mulheres negras e periféricas, que realizam o trabalho doméstico e de cuidado de forma invisível e mal remunerada. Quando o feminismo ignora a economia, a opressão de gênero vira apenas um nicho de mercado ou um selo de diversidade para empresas limparem sua imagem corporativa.

Se a economia preparou o terreno para a divisão, a internet e as redes sociais forneceram as ferramentas para acelerá-la. Os algoritmos das plataformas digitais lucram com o conflito e com a criação de bolhas, fazendo com que o debate sobre o feminino frequentemente se divida em subidentidades que atacam umas às outras. A busca por uma pureza teórica ou identitária substitui a união prática e a construção de alianças políticas amplas. Em vez de construirmos pontes para dialogar, criamos feudos digitais onde você só é aceito se concordar totalmente com o grupo, validando o pertencimento através da exclusão do outro.
Em um mundo desamparado e sem perspectivas de um futuro coletivo, as pessoas estão usando marcadores sociais como âncoras para não afundarem. O gênero, a orientação sexual e até mesmo diagnósticos médicos e laudos psicológicos viraram formas de dizer "eu existo e pertenço a este grupo". Para o feminismo, isso é uma faca de dois gumes: se por um lado dar nome à dor e à vivência das mulheres é fundamental para a dignidade delas, por outro, ficar preso rigidamente no papel de vítima ou em uma essência imutável impede a ação política real. A identidade corre o risco de virar um fim em si mesma, funcionando como um refúgio de desabafo em vez de uma plataforma para a libertação.
O desafio que se impõe ao feminismo contemporâneo não é esquecer as necessidades específicas das mulheres, mas sim rejeitar a fragmentação que o mercado impõe. A emancipação das mulheres não vai acontecer se for tratada como uma disputa isolada por privilégios ou reconhecimento. Ela exige a reconstrução de uma solidariedade profunda que una gênero, raça e classe, transformando a identidade não em uma armadilha que nos isola em caixas, mas sim no ponto de partida para uma luta universal por justiça e igualdade.
Roberta Luzzardi

Educadora. Defensora do Feminismo Intersecccional,
da Educação Pública e da Agroecologia.
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