Neymar: Ídolo ou Espelho de uma Sociedade?
[...] Ou aquilo que gostaríamos de ser.
A idolatria em torno do jogador revela menos sobre seus feitos esportivos e mais sobre os valores de uma sociedade que insiste em transformar um homem adulto em um eterno garoto.
Há algo curioso na forma como parte dos brasileiros olha para Neymar. Não parece ser a admiração comum que se dedica a um atleta talentoso. Não é apenas sobre gols, dribles, títulos ou momentos inesquecíveis em campo. Parece haver algo mais profundo, e talvez mais preocupante.
Durante muito tempo, os grandes ídolos do esporte inspiravam pela disciplina. Eram admirados pelo esforço silencioso, pela capacidade de superar limites e pela dedicação quase obsessiva a um objetivo. O talento encantava, mas o exemplo sustentava a admiração.
Com Neymar, em muitos casos, a lógica parece invertida
É evidente que ele possui qualidades técnicas extraordinárias. Negar isso seria desonestidade intelectual. Poucos jogadores brasileiros alcançaram o nível de protagonismo que ele alcançou. Mas o que chama atenção é que boa parte de seus defensores mais fervorosos raramente fala de seus feitos esportivos. Falam do homem. E não necessariamente de suas virtudes.
Defendem suas polêmicas, relativizam suas atitudes, transformam seus excessos em traços de personalidade admiráveis. Celebram a vida sem freios, as controvérsias constantes e a aparente incapacidade de amadurecer diante da própria condição de figura pública. Como se cada manchete negativa fosse apenas mais uma prova de autenticidade.
Talvez porque Neymar tenha deixado de ser visto como atleta e passado a funcionar como espelho.
Muitos enxergam nele uma espécie de fantasia moderna: alguém que pode fazer quase tudo sem sofrer consequências proporcionais. Um sujeito rico, famoso e poderoso que vive segundo os próprios impulsos. Não importa quantas críticas receba, quantas controvérsias acumule ou quantas oportunidades desperdice. Sempre haverá uma multidão pronta para justificar, perdoar e aplaudir.
Nesse processo de infantilização permanente, surge até mesmo a curiosa alcunha de “Menino Ney”. O apelido poderia fazer sentido quando se tratava de um jovem talento surgindo para o futebol. Mas o tempo passou. O garoto tornou-se um homem adulto, pai, multimilionário e uma das figuras públicas mais conhecidas do planeta. Ainda assim, muitos insistem em tratá-lo como um menino.
E talvez isso não seja um detalhe irrelevante.
Afinal, chamar um homem adulto de menino é também uma forma simbólica de absolvê-lo das responsabilidades que normalmente acompanham a maturidade. O erro vira travessura. A imprudência vira espontaneidade. A falta de compromisso vira apenas mais uma característica do “garoto”. O apelido, nesse sentido, parece revelar muito mais sobre a disposição de seus admiradores em protegê-lo do que sobre o próprio Neymar.
Também chama atenção a forma como critérios que normalmente seriam inegociáveis no esporte de alto rendimento parecem ser flexibilizados quando o assunto é Neymar. Nos últimos anos, seu desempenho tem apresentado um declínio perceptível, acompanhado por uma sequência quase ininterrupta de lesões e longos períodos de inatividade. Ainda assim, discussões sobre sua presença em convocações e sua condição de protagonista frequentemente parecem ignorar aspectos objetivos que seriam aplicados a qualquer outro atleta. Em vez de prevalecer a análise técnica do momento esportivo, prevalece muitas vezes o peso do nome, da marca e da personagem. Como se o passado fosse suficiente para justificar indefinidamente um lugar que, no esporte, deveria depender do presente.
A identificação, portanto, parece menos esportiva e mais pessoal.
Não é o drible que encanta. É a licença.
Não é a conquista que inspira. É a sensação de impunidade.
Não é a excelência que atrai. É a possibilidade de viver sem responsabilidade.
Por isso, quando Neymar é criticado, muitos de seus admiradores reagem como se a crítica fosse dirigida a eles mesmos. Porque, de certa forma, é. Criticar determinados comportamentos do jogador significa questionar valores que eles próprios cultivam ou desejariam cultivar.
O fenômeno deixa de ser futebol e passa a ser sociologia.
A idolatria, afinal, revela tanto sobre o ídolo quanto sobre quem idolatra.
Talvez seja por isso que o debate em torno de Neymar raramente permaneça dentro das quatro linhas. Seus números, seus títulos e sua carreira acabam ficando em segundo plano. O que realmente mobiliza paixões é a personagem construída fora do campo. E aí reside a ironia.
Um dos atletas mais talentosos de sua geração corre o risco de ser lembrado menos por aquilo que fez com a bola nos pés e mais por aquilo que representou para uma sociedade cada vez mais fascinada pela fama sem mérito contínuo, pela exposição sem exemplo e pelo sucesso desacompanhado de grandeza moral.
No fim, a devoção a Neymar diz menos sobre Neymar e mais sobre o país que o transformou em símbolo.
Porque os ídolos que escolhemos admirar costumam revelar, com desconfortável precisão, aquilo que somos. Ou aquilo que gostaríamos de ser.
Vinicíus Santana

Apresentador
Colunista
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