Quando Junho Cheirava a Fogueira
[...] a alegria não precisava de grandes explicações...
Houve um tempo em que o Dia de São João não chegava pelo calendário, mas pelo cheiro. Bastava o mês de junho despontar para que o ar começasse a carregar o perfume da lenha queimando, do milho cozido, da pipoca e do amendoim torrado. Era como se a cidade inteira soubesse que algo especial estava para acontecer.
As crianças contavam os dias. Os adultos preparavam as bandeirinhas de papel colorido que atravessavam ruas e quintais como pequenos arco-íris pendurados no céu. As roupas xadrez saíam dos armários e, por uma noite, ninguém tinha vergonha de desenhar sardas no rosto ou remendar uma calça para parecer um matuto de brincadeira.
O Dia de São João era mais do que uma festa. Era um encontro. Numa época em que não existiam celulares iluminando os rostos e distraindo conversas, as pessoas se reuniam ao redor da fogueira para olhar umas para as outras. Havia algo mágico naquele círculo de luz tremulante. Os mais velhos contavam histórias, os jovens trocavam olhares tímidos e as crianças corriam em volta do fogo, acreditando que a felicidade era uma coisa simples e infinita.
A sanfona chorava e sorria ao mesmo tempo. O som do forró se espalhava pela noite fria, misturado ao estalo da madeira queimando. Era impossível ficar parado. Quem não dançava batia o pé no chão acompanhando o ritmo. Quem não cantava sorria. E quem chegava triste quase sempre encontrava um motivo para voltar para casa mais leve.
Havia também os pequenos rituais que só fazem sentido quando vistos pela lente da memória. A ansiedade para pular a fogueira — antes que aprendêssemos os perigos que isso representa. O medo e o fascínio dos fogos de artifício. As simpatias para descobrir o nome do futuro amor. O cuidado em guardar um pedaço de bolo de milho para alguém que ainda não tinha chegado à festa.
Talvez o que mais desperte saudade não sejam as bandeirinhas, a canjica ou a quadrilha. Talvez seja a sensação de pertencimento que aquelas noites proporcionavam. Por algumas horas, a vida parecia desacelerar. As diferenças ficavam menores. Os vizinhos se conheciam pelo nome. As portas permaneciam abertas. E a alegria não precisava de grandes explicações.
Hoje as festas continuam existindo, muitas delas maiores, mais organizadas e mais iluminadas, algumas sem o brilho, sem a música, virou status, sinônimo de pegação. Mas, para quem viveu aqueles dias, permanece a lembrança de um tempo em que a felicidade cabia num pedaço de pé de moleque, numa música tocada por uma sanfona desafinada e no calor de uma fogueira enfrentando o frio da noite.
Quando chega o Dia de São João, não é apenas memória que retorna. Voltam também as vozes de quem já partiu, os rostos da infância, os abraços guardados no peito. E, por um instante, enquanto uma fogueira dança diante dos olhos, parece que o tempo aceita o convite para fazer uma pausa.
Então entendemos que a saudade talvez seja isso: uma fogueira acesa dentro do coração, iluminando lembranças que o tempo jamais conseguiu apagar.
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