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Dica de Cinema: Fame (1980)

O sonho e o canto de uma geração que precisou aprender com sucesso e frustração sobre à vida!

Dica de Cinema: Fame (1980)
Imagem Internet

Assistir a "Fame" hoje é como entrar em uma sala de ensaio onde o tempo não passou — apenas ficou mais pesado. Dirigido por Alan Parker, o filme não se contenta em ser um musical sobre jovens talentosos em Nova York. Ele é, na verdade, um retrato cru e, ao mesmo tempo, vibrante daquilo que acontece quando o sonho deixa de ser ideia e passa a ser corpo, rotina, disciplina e desgaste.


O cenário é a lendária High School of Performing Arts, onde estudantes de dança, música e teatro atravessam um cotidiano que mistura euforia criativa e pressão constante. Ali, a arte não é um hobby nem uma promessa abstrata: é um campo de batalha íntimo, onde cada erro expõe fragilidades e cada acerto cobra um preço emocional silencioso. O filme não romantiza esse espaço; ele o observa com uma lucidez quase documental, ainda que embalado por música e movimento.


O que torna “Fame” tão impactante é a recusa em oferecer conforto narrativo. Não há trajetórias lineares nem finais plenamente resolvidos. Os personagens avançam e recuam, brilham e fracassam, acreditam e duvidam — muitas vezes dentro da mesma sequência. O filme entende que o amadurecimento artístico não é um processo limpo, mas um acúmulo de pequenas perdas e descobertas que nem sempre se equilibram.




A cidade de Nova York, aqui, não é apenas cenário: é organismo vivo. Ela respira junto dos personagens, impondo ritmo, pressão e contradição. Em alguns momentos, a metrópole parece amplificar a energia dos jovens; em outros, engole suas certezas com o mesmo silêncio indiferente com que acolhe milhares de outras histórias anônimas.


Entre as cenas mais emblemáticas, a famosa sequência da canção “Fame” sintetiza o espírito do filme. Ali, o sonho explode em coreografia coletiva, e por alguns minutos tudo parece possível. Mas o impacto da cena vem justamente do contraste com o que a cerca: a consciência de que aquele êxtase é passageiro, quase frágil, como se a própria alegria soubesse que não pode durar para sempre.


A presença de Irene Cara dá ao filme uma dimensão ainda mais emocional. Sua interpretação não funciona apenas como performance, mas como síntese de uma geração de artistas que acreditam na arte como destino, mesmo sem garantias. A música-título, premiada e amplamente reconhecida, ultrapassou o filme e virou símbolo de uma ideia persistente: a de que ser visto pode ser tão desejado quanto sobreviver.


Mas “Fame” é, sobretudo, um filme sobre o preço invisível da ambição. Ele observa jovens que acreditam estar escolhendo um caminho, quando na verdade estão sendo moldados por ele. O talento, ali, nunca é suficiente por si só. Ele precisa resistir à dúvida, à rejeição, ao desgaste emocional e à possibilidade muito real de não acontecer.


É nesse ponto que o filme se torna mais duro — e mais verdadeiro. Porque ele entende que nem todos os sonhos se realizam, mas todos deixam marcas. E essas marcas não são fracassos: são parte do processo de se tornar alguém.



Irene Cara como a Coco Hernandez 


Ao final, “Fame” não oferece catarse simples. Ele deixa uma espécie de eco. Uma sensação de que o palco continua existindo mesmo depois do último aplauso, e de que cada personagem segue dançando em algum lugar entre a memória e a frustração.


O que permanece, décadas depois, não é apenas a estética dos anos 1980 ou a energia das coreografias. O que fica é a ideia incômoda — e profundamente humana — de que sonhar é sempre um ato de risco. E ainda assim, inevitável.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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