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Tá Liberado Acreditar: A Campanha da Brahma Que Não Vê O Outro Lado

[...] ignorando deliberadamente os efeitos devastadores que o álcool provoca todos os dias em milhares de famílias brasileiras.

Tá Liberado Acreditar: A Campanha da Brahma Que Não Vê O Outro Lado
Imagem Divulgação

Adoro uma Brahma, sou um cervejeiro assumido, mas sei os meus limites, mas será que "tá liberado ter limite"? Confesso que a campanha "Tá Liberado Acreditar", lançada pela Brahma para embalar a torcida brasileira durante a Copa do Mundo, me causou sentimentos contraditórios, porque ela promete cerveja de graça a população caso a seleção traga o Hexa. Como milhões de brasileiros, gosto de uma cerveja gelada, especialmente em momentos de celebração. Não sou hipócrita. O problema não está em beber. O problema está em transformar o consumo em um elemento quase obrigatório da paixão nacional, ignorando deliberadamente os efeitos devastadores que o álcool provoca todos os dias em milhares de famílias brasileiras.


A propaganda é bonita. Mexe com o imaginário coletivo. Explora a esperança, a emoção, o patriotismo e aquela velha crença de que o futebol é capaz de unir um país inteiro. Tudo isso embalado por uma mensagem simples: está liberado acreditar. O que a campanha não pergunta é se também está liberado estabelecer limites.


Porque, na prática, o álcool continua sendo um dos maiores problemas de saúde pública do Brasil.


Os números são conhecidos, embora raramente apareçam nos comerciais de TV. O consumo abusivo de bebidas alcoólicas está relacionado a acidentes de trânsito, homicídios, feminicídios, agressões físicas e inúmeros casos de violência doméstica. Quantas mulheres, crianças e idosos vivem o inferno dentro de casa porque alguém resolveu que beber até perder o controle faz parte da diversão? Quantas vidas são destruídas pela dependência química que, diferente de outras drogas, continua sendo socialmente romantizada e incentivada por grandes corporações?


A Ambev conhece essa realidade. Seria ingenuidade imaginar o contrário. Trata-se de uma das maiores empresas do planeta, que investe milhões em pesquisas de mercado e conhece profundamente os impactos sociais do próprio produto. Ainda assim, suas campanhas preferem apostar na emoção nacionalista e no consumo festivo, reforçando a velha associação entre futebol, felicidade e cerveja.


É evidente que ninguém aqui está defendendo proibição ou moralismo. O problema não é a existência da cerveja, mas a completa ausência de reflexão sobre responsabilidade coletiva. A mensagem comercial fala em liberdade para acreditar, consumir e comemorar, mas silencia sobre os limites que separam a celebração da tragédia.


Talvez porque limites não vendam.


A indústria do álcool construiu, ao longo das décadas, uma narrativa poderosa: beber é sinônimo de amizade, diversão, masculinidade, conquista e pertencimento. O sujeito que não bebe, muitas vezes, é visto como estranho e antissocial. A cerveja tornou-se quase um ritual obrigatório da identidade brasileira contemporânea, como se torcer sem uma latinha na mão fosse uma experiência incompleta.


Mas existe o outro lado dessa história que não aparece nas campanhas publicitárias. É o lado das mulheres que esperam o marido chegar em casa depois do jogo. Das crianças que aprendem cedo a reconhecer o cheiro da violência misturado ao álcool. Das vítimas de acidentes causados por motoristas embriagados. Das famílias destruídas por uma dependência que a sociedade insiste em tratar como algo normal ou até divertido.


Afinal, qual é o preço social dessa alegria vendida em horário nobre?


Adoro uma Brahma. Continuarei tomando a minha cerveja, mas faço isso sabendo que existe uma diferença fundamental entre celebrar e incentivar uma cultura que banaliza o consumo excessivo. Sei que meu direito de beber termina quando começa o sofrimento do outro.


Talvez a verdadeira campanha que o Brasil precise não seja "Tá Liberado Acreditar".


Talvez seja algo mais simples e mais honesto: Tá liberado comemorar, mas nunca perder o limite.


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