cover
Tocando Agora:

Muito Além do Kimchi: Como os K-Dramas Transformaram a Cultura Sul-Coreana em um Fenômeno Global

[...] Os K-dramas funcionam como verdadeiras vitrines da sociedade sul-coreana.

Muito Além do Kimchi: Como os K-Dramas Transformaram a Cultura Sul-Coreana em um Fenômeno Global
Imagem Divulgação

Durante muito tempo, quando se falava em cultura asiática no Brasil, era comum que diferentes países fossem tratados como se compartilhassem uma única identidade. Aos poucos, essa percepção começou a mudar. Nos últimos anos, a Coreia do Sul deixou de ser apenas uma referência distante para se tornar um dos maiores fenômenos culturais do mundo. E boa parte dessa transformação pode ser atribuída aos K-dramas.


As produções sul-coreanas conquistaram espaço nas plataformas de streaming, ultrapassaram barreiras linguísticas e passaram a fazer parte da rotina de milhões de pessoas. O que começou como um nicho de entretenimento rapidamente se transformou em um movimento cultural capaz de influenciar hábitos de consumo, turismo, moda, música e, principalmente, gastronomia.


Hoje, não é difícil encontrar alguém que tenha experimentado uma receita coreana depois de vê-la em uma série ou que tenha pesquisado o significado de um prato servido em uma cena aparentemente comum. A comida deixou de ser apenas um elemento de ambientação para se tornar protagonista da experiência de quem acompanha essas produções.


Quem assiste a um K-drama logo percebe que a alimentação ocupa um lugar central na narrativa. Diferentemente de muitas produções ocidentais, onde as refeições costumam servir apenas como pano de fundo para diálogos importantes, nas séries sul-coreanas comer é um ato de afeto, reconciliação, celebração e pertencimento.


É comum que personagens resolvam conflitos em volta de uma mesa, compartilhem pratos fumegantes após um dia difícil ou expressem carinho preparando uma refeição para alguém. Esses momentos despertam curiosidade no público e criam uma conexão emocional com alimentos que, até pouco tempo atrás, eram praticamente desconhecidos em diversos países.


Pratos como Kimchi, Bibimbap, Tteokbokki, Ramyeon, Kimbap e o tradicional churrasco coreano deixaram de ser palavras estranhas para se tornarem itens desejados por consumidores em diferentes partes do mundo.


O impacto pode ser observado também no crescimento de restaurantes especializados, mercados de produtos asiáticos e pequenas lojas que passaram a importar ingredientes antes difíceis de encontrar. Em cidades brasileiras, tornou-se cada vez mais comum encontrar estabelecimentos dedicados exclusivamente à culinária sul-coreana, muitos deles frequentados por pessoas que tiveram seu primeiro contato com esses sabores através da televisão.


Mas reduzir esse fenômeno apenas à gastronomia seria ignorar sua dimensão cultural.


Os K-dramas funcionam como verdadeiras vitrines da sociedade sul-coreana. Ao acompanhar uma história de romance, suspense ou drama familiar, o público também conhece aspectos do cotidiano do país: a arquitetura das cidades, os costumes, os feriados, a etiqueta à mesa, o respeito aos mais velhos, o ambiente corporativo e até pequenas expressões do idioma.


Essa exposição desperta curiosidade. Muitos espectadores passam a estudar o alfabeto coreano, conhecido como Hangul, aprendem palavras básicas, pesquisam a história da Coreia do Sul e desenvolvem interesse por outros elementos da cultura local. O entretenimento acaba funcionando como uma porta de entrada para um aprendizado mais amplo.


Naturalmente, esse movimento também impulsionou outros setores da chamada "Onda Coreana", conhecida internacionalmente como Hallyu. A música, representada pelo K-pop, a indústria de cosméticos, a moda e até o turismo passaram a crescer em conjunto. Quem começa assistindo a um drama frequentemente acaba ouvindo artistas coreanos, experimentando produtos de beleza e sonhando em visitar lugares que conheceu pela tela.


É impossível falar desse crescimento sem reconhecer o papel das plataformas de streaming. Elas democratizaram o acesso às produções sul-coreanas e permitiram que séries antes restritas ao mercado asiático chegassem simultaneamente a dezenas de países. A legenda deixou de ser uma barreira para se transformar em um detalhe. O público passou a buscar boas histórias, independentemente do idioma em que fossem contadas.


Há também um aspecto narrativo que ajuda a explicar esse sucesso. Os K-dramas costumam investir em roteiros emocionalmente envolventes, personagens bem desenvolvidos e temporadas mais curtas do que muitas séries ocidentais. O resultado são histórias com começo, meio e fim bem definidos, capazes de criar vínculos profundos com o público.


Ao mesmo tempo, é importante olhar para esse fenômeno com equilíbrio.


Assim como acontece com qualquer produto cultural de grande sucesso, existe o risco da romantização. As séries apresentam recortes da realidade e nem sempre refletem as complexidades da sociedade sul-coreana. Questões como pressão acadêmica, competitividade no mercado de trabalho, desigualdade social e desafios relacionados à saúde mental também fazem parte do cotidiano do país, ainda que apareçam de forma limitada ou romantizada em algumas produções.


Consumir cultura estrangeira é enriquecedor, mas isso não significa idealizar um país como se ele fosse isento de problemas. A riqueza do intercâmbio cultural está justamente na possibilidade de conhecer outras realidades sem abandonar o senso crítico.


Por outro lado, o crescimento desse interesse representa uma oportunidade importante de aproximação entre povos. A gastronomia, a música, o cinema e a televisão sempre foram formas poderosas de diálogo. Experimentar um prato típico ou assistir a uma série produzida em outro idioma é também uma maneira de ampliar horizontes e compreender diferentes formas de viver.


No Brasil, essa aproximação acontece de maneira especialmente interessante. Somos um país formado por influências culturais diversas, e talvez por isso exista tanta abertura para incorporar novos hábitos sem abandonar nossas próprias tradições. O sucesso da culinária sul-coreana não substitui a feijoada, o acarajé ou o pão de queijo. Ele apenas amplia o repertório gastronômico e cultural de uma sociedade que sempre encontrou riqueza na diversidade.


No fim das contas, o crescimento do consumo da cultura e da comida sul-coreana revela algo maior do que uma simples tendência de entretenimento. Ele demonstra que boas histórias têm o poder de atravessar fronteiras, derrubar preconceitos e despertar curiosidade sobre o outro.


Talvez esse seja o maior legado dos K-dramas. Mais do que conquistar audiência, eles fizeram milhões de pessoas entenderem que conhecer uma cultura também pode começar por uma cena simples: uma mesa posta, uma panela fumegante e personagens compartilhando uma refeição. Porque, muitas vezes, é justamente ao redor da comida que as distâncias entre diferentes povos começam a diminuir.







Ninha Sousa

Colunista 

Comentários (0)