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Perspectivas #4: Insubstituíveis

Alguns pensamentos sobre recomeços e legados.

Perspectivas #4: Insubstituíveis
Nova Formação do Linkin Park

Nessa última sexta feira, dia 06/09, a lendária banda Linkin Park retornou aos palcos (numa maravilhosa apresentação disponível oficialmente no canal da banda no YouTube) e disponibilizou uma nova música, “The Emptiness Machine”. Trata-se do primeiro show e o primeiro som de estúdio com a vocalista Emily Armstrong. Ter assistido ao show me trouxe lembranças de outros momentos de renascimento, senti que deveria falar sobre essas coisas todas - e aqui estamos nós. Comecemos contextualizando.




Eu me orgulho de ser um grande fã da banda Alice in Chains, que conheço desde 2012, época em que estava nos meus 15 anos. Comecei pelos clássicos, com os álbuns "Facelift", "Dirt" e "Jar of Flies", mas o que mais me pegou na época foi ter assistido a apresentação ao vivo no MTV Unplugged. Ver o saudoso Layne Staley cantar naquele show foi uma experiência que ficou marcada no meu coração, te convido a tirar cinco minutos para conferir a apresentação de "Down In A Hole" naquele acústico, caso você não conheça. Bom, não demorou muito na época pra eu descobrir que aquele vocalista incrível não estava entre nós há 10 anos e que havia outra pessoa nos vocais principais.

Ano seguinte, 2013, tivemos o lançamento do álbum "The Devil Put Dinosaurs Here", que foi o meu primeiro contato mais a fundo com a nova fase do Alice in Chains. Houve um disco anterior ainda, chamado "Black Gives Way to Blue", já com William DuVall nos vocais, mas não havia dado muita atenção àquele álbum até então. Escutei aquele lançamento de 2013, estranhei. Precisei de um tempo pra digerir aquilo tudo. Era a banda que eu conhecia, mas trazia algo de diferente, ao passo que senti que algo também faltava. Eu ainda não conhecia a palavra "ressignificação" na época, mas essa é a palavra exata pra falar sobre o que aconteceu com a banda desde a morte do Layne.


Layne e Duvall - Alice In Chains


Houve um luto, houve um processo de lidar com a perda, houve uma ressignificação, uma reconexão e, então, um recomeço. O início de uma nova era que se deu lá no álbum anterior, de 2009, e que teve seu segundo marco em 2013. Precisou de tempo, precisou de um processo, assim como eu precisei do meu processo na época pra abraçar o novo.


Trago aqui dois pontos que me ajudaram a abraçar de vez aquela nova configuração da minha banda do coração: 1) os vocais do William DuVall em "Hung on a Hook", que me cativaram pela profundidade e; 2) a música que encerra o disco do dinossauro, "Choke" que, dentre uma série de possibilidades de interpretação, fala sobre o processo de construção de toda uma história e um legado, e de um desejo sincero de manter essas coisas íntegras e protegidas.


No sábado, dia 07/09, eu assisti ao show do Linkin Park com a Emily e, meus amigos, que misto de emoções que foi aquela experiência. É notável a presença do Linkin Park na história de muitas pessoas, independentemente de seus gêneros musicais de preferência. Eles transcenderam o Rock, mostraram ser muito além das barreiras e rótulos, e isso ao ponto de terem se tornado uma banda que une diversas tribos. "In the End" tá aí pra nos provar isso, é um som que muito provavelmente vai ser bem recebido onde quer que toque. O legado do Linkin Park e do Chester Bennington, lendário vocalista que nos deixou em 2017, está aí para ser celebrado - assim como o legado de Layne e do Alice in Chains.


Emily Armstrong


A morte de Chester Bennington atravessou milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo. Pessoas que, de alguma forma, se conectaram a ele e à sua obra. Houve luto, houve ressignificação, houve reconexão e, agora, há um recomeço. A Emily vem aí com uma força e uma competência admiráveis, assumindo os vocais mas não o lugar de Chester. Porque o lugar de cada um é o lugar de cada um, e Emily está aí buscando o seu.


Vi muitos comentários por aí estabelecendo comparações que, do meu ponto de vista, não fazem sentido. Me soa impróprio estabelecer comparações entre Chester e Emily, uma vez que não se trata de uma substituição - o que fica evidente nessa apresentação da sexta feira, aliás. Por mais que a lógica dos tempos líquidos tente nos convencer do contrário, pessoas não são substituíveis. Pessoas são singulares, relações são singulares. E uma banda, fundamentalmente, é um processo humano que envolve relações entre uma série de indivíduos que compõem um universo único e irrepetível.


Chester Bennington


Irrepetível! Da mesma forma que não haverá um outro Chester, não haverá um outro você. Não se trata de estabelecer um "novo Chester" ou substituí-lo. Há, na verdade, uma celebração daquilo que é o Linkin Park, uma celebração da vida e um tributo à força da natureza que foi Chester Bennington. Além disso, é um recomeço, uma nova página na história de cada uma das pessoas que compõem o Linkin Park e das que, à sua maneira, se conectam ao seu trabalho - com um grande respeito à história e ao legado construído até aqui.


Chester Bennington foi uma das maiores vozes de nossa época, e é preciso muita coragem para subir aos palcos com o Linkin Park e assumir os vocais principais tendo consciência disso e de todo legado da banda. Bem vinda, Emily Armstrong! Aliás, álbum novo saindo em novembro. Fiquemos ligados.



por

Igor Jeske

Músico

Psicólogo

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