Reality de Viih Tube e Eliezer Expõe o Velho Constrangimento do Trabalho Doméstico Embalado como Entretenimento
Tudo em nome do engajamento!
Há algo profundamente incômodo no reality show criado por Viih Tube e Eliezer com os próprios funcionários da casa. Não porque pessoas não possam brincar, confraternizar ou construir relações afetuosas no ambiente de trabalho, mas porque existe uma linha ética que separa a descontração do constrangimento — e ela parece ter sido ignorada em nome do engajamento.
Transformar empregados em participantes de uma competição pública, submetidos a provas, julgamentos e desafios diante de milhões de seguidores, é reduzir relações humanas e profissionais a um produto de entretenimento. O que está sendo vendido não é apenas conteúdo para as redes sociais, mas a própria dinâmica de poder entre patrões e trabalhadores.
A defesa apresentada pelo casal é conhecida: todos aceitaram participar, ninguém foi obrigado e havia premiações em dinheiro. Mas essa justificativa ignora uma verdade elementar sobre qualquer relação trabalhista: o poder nunca é distribuído de forma igual. O patrão pode fazer convites que, na prática, soam como oportunidades que não convém recusar. O funcionário, por sua vez, carrega o peso da dependência econômica, do desejo de agradar e do receio, explícito ou não, de parecer desinteressado ou ingrato.
É justamente essa desigualdade que torna o episódio tão problemático.
Quando trabalhadores precisam disputar recompensas e benefícios sob o olhar das câmeras, a fronteira entre reconhecimento profissional e humilhação pública torna-se perigosamente fina. Provas que envolvem revirar banheiros, lixeiras ou se submeter a situações embaraçosas podem até ser vistas por alguns como simples brincadeiras, mas carregam certos requintes de crueldade: a naturalização de que determinadas pessoas podem ser transformadas em espetáculo porque ocupam uma posição social e econômica inferior.
O mais perturbador é que isso acontece em um país cuja história foi construída sobre relações domésticas marcadas pela desigualdade e pelo paternalismo. Durante décadas, empregadas e empregados foram tratados como membros "quase da família" — uma expressão aparentemente carinhosa, mas que muitas vezes serviu para mascarar a ausência de direitos, de reconhecimento profissional e de respeito à autonomia do trabalhador.
O reality de Viih Tube e Eliezer parece atualizar essa velha lógica para a era dos influenciadores digitais. O que antes acontecia entre quatro paredes agora ganha trilha sonora, edição, patrocinadores, comentários e milhões de visualizações. O paternalismo virou conteúdo. O vínculo empregatício virou entretenimento. O constrangimento virou estratégia de engajamento.
Existe ainda uma questão moral que não pode ser ignorada: por que trabalhadores precisam performar, competir e expor a própria intimidade para conquistar benefícios ou reconhecimento? Desde quando boas condições de trabalho passaram a ser tratadas como prêmios de reality show e não como obrigações éticas de qualquer empregador?
Vivemos uma época onde tudo precisa virar conteúdo. Casamentos, filhos, luto, maternidade, rotinas domésticas e, agora, funcionários. A lógica das redes sociais transformou a vida privada em mercadoria permanente, e os limites entre o que pode ou não ser explorado em busca de audiência tornam-se cada vez mais difusos. Mas nem tudo deveria estar à venda. Nem tudo deveria ser transformado em espetáculo.
Os trabalhadores envolvidos nesse episódio talvez tenham aceitado participar de boa-fé, acreditando que estavam vivendo uma experiência divertida e vantajosa. Ainda assim, a discussão ultrapassa a vontade individual de cada um. Trata-se de compreender que dignidade profissional não pode depender da aprovação dos algoritmos nem da capacidade de gerar entretenimento para terceiros.
O que aconteceu não é apenas uma polêmica passageira das redes sociais. É um retrato de uma sociedade que continua enxergando trabalhadores como personagens secundários da história dos ricos e famosos, pessoas cuja exposição, constrangimento e vulnerabilidade podem ser convertidos em likes, dinheiro e engajamento. E talvez seja justamente isso que mais assusta: a humilhação deixou de ser percebida como problema e passou a ser vendida como diversão.
Jeff Soares

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