Manaus e o Velho Fantasma do racismo religioso que o Brasil insiste em não Enfrentar
[...] Enquanto essa contradição persistir, o Brasil continuará sendo um país que proclama tolerância, convivendo silenciosamente com formas antigas e renovadas de preconceito.
Infelizmente toda semana no Brasil está notícia se repete, agora a invasão de um Terreiro de Matriz Africana pela Polícia Militar em Manaus mostra que estamos convivendo com preconceitos travestidos de normalidade institucional. A apreensão de tambores e outros objetos sagrados durante uma cerimônia religiosa não pode ser tratada apenas como um procedimento policial mal conduzido ou um simples desentendimento entre vizinhos e praticantes de uma tradição espiritual. O que aconteceu na capital amazonense carrega o peso de séculos de perseguição às religiões afro-brasileiras e revela uma injustiça sem ações concretas para uma solução ou simplesmente a aplicação da lei, que garante a liberdade ao culto religioso.
O mais curioso é observar como a sociedade brasileira reage de forma diferente dependendo da fé envolvida. Poucos imaginam agentes públicos entrando em uma missa para interromper cânticos, apreendendo imagens sacras ou determinando o encerramento imediato de uma celebração evangélica por causa do barulho. A comoção seria instantânea, as autoridades seriam cobradas e a liberdade religiosa ocuparia o centro do debate nacional.
Quando o alvo, porém, é um Terreiro, surgem imediatamente justificativas burocráticas, interpretações jurídicas e uma estranha disposição coletiva para relativizar aquilo que, em qualquer outro contexto, seria entendido como uma grave violação de direitos fundamentais.
Não estamos falando apenas de instrumentos musicais. Os tambores apreendidos pela Polícia Militar possuem significado espiritual, ancestral e identitário. Representam a memória de povos que sobreviveram à escravidão, ao apagamento cultural e à criminalização sistemática de suas crenças. Retirá-los de um ritual religioso não é um gesto neutro; é tocar em símbolos que carregam séculos de resistência.

A verdade incômoda é que o racismo religioso continua profundamente enraizado nas estruturas brasileiras. Ele não se manifesta apenas através de ataques violentos promovidos por grupos extremistas ou por discursos abertamente preconceituosos. Também aparece em decisões administrativas, abordagens policiais e práticas institucionais que enxergam manifestações afro-brasileiras como algo exótico, suspeito ou potencialmente problemático.
Durante décadas, o Estado brasileiro tratou Terreiros como caso de polícia. Delegacias invadiam espaços sagrados, apreendiam objetos religiosos e perseguiam lideranças espirituais sob o argumento da manutenção da ordem pública. A Constituição de 1988 prometeu romper definitivamente com essa herança autoritária, garantindo a liberdade plena de culto e a proteção das manifestações religiosas.
No entanto, episódios como o ocorrido em Manaus demonstram que a mudança jurídica não foi acompanhada por uma transformação cultural igualmente profunda. O preconceito mudou de roupa, está a cada dia mais sofisticado e institucionalmente aceitável, mas continua produzindo exclusão e violência.
É evidente que nenhuma religião está acima da lei e que reclamações sobre perturbação do sossego devem ser analisadas pelo poder público. O problema surge quando a intervenção ocorre sem critérios técnicos claros, desconsidera protocolos culturais específicos e ignora completamente o valor dos elementos religiosos envolvidos. Nesse cenário, a suspeita de discriminação deixa de ser mero exagero militante para tornar-se uma hipótese absolutamente plausível.

A reação das entidades de matriz africana, que classificaram o episódio como racismo religioso e acionaram órgãos de controle, revela algo maior do que a indignação. Trata-se do acúmulo histórico de comunidades que, geração após geração, precisaram lutar pelo direito elementar de existir e praticar sua fé sem medo da repressão estatal ou do julgamento social.
Talvez a pergunta mais desconfortável seja justamente esta: por que ainda é tão difícil para parte da sociedade brasileira reconhecer que ataques às religiões afro-brasileiras possuem uma dimensão racial indissociável? Afinal, não se combate apenas uma crença, mas toda uma herança cultural construída por populações negras que ajudaram a formar a identidade nacional.
O episódio de Manaus é um novo um alerta. Uma democracia verdadeira não escolhe quais tradições merecem respeito. Ou a liberdade religiosa vale para todos, inclusive para os povos de Terreiro, ou ela deixa de ser um direito universal para se transformar em privilégio de alguns.
Enquanto essa contradição persistir, o Brasil continuará sendo um país que proclama tolerância, convivendo silenciosamente com formas antigas e renovadas de preconceito. E isso, por si só, já representa um enorme fracasso coletivo.
Jeff Soares

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