cover
Tocando Agora:

Crônica: Lidando com o Luto Por Meu Herói

[...] Nós crescemos. Vieram os boletos, as responsabilidades, as perdas, as decepções e as cicatrizes inevitáveis da vida adulta.

Crônica: Lidando com o Luto Por Meu Herói
Imagem Internet

Fui um menino de infância humilde do interior do Rio Grande do Sul. Nasci num mundo de horizontes largos, onde o vento passava livre pelos campos e a imaginação precisava preencher aquilo que o dinheiro não podia comprar. Minha infância foi feita de pequenas alegrias: o cheiro da terra molhada, os fins de tarde dourados, os sonhos guardados no bolso, as bolinhas de gude e uma televisão que, vez ou outra, abria uma janela para universos distantes.


Foi por essa janela que entrou Jaspion. E nunca mais saiu.


Eu não sonhava em ser rico, famoso ou poderoso. Eu sonhava em ser ele. Sonhava vestir aquela armadura reluzente, enfrentar monstros gigantes, salvar inocentes e lutar por um mundo mais justo. Sonhava porque toda criança precisa de um herói. E os meninos pobres, talvez mais do que os outros, precisam acreditar que existisse alguma força capaz de vencer as injustiças que encontram pelo caminho.


Conversando com meu amigo Thiago lá de São Paulo sobre a morte de Hikaru Kurosaki, percebi algo difícil de explicar. Não era apenas tristeza. Era como se uma porta antiga tivesse se fechado dentro de nós. Como se uma voz distante viesse lembrar que o tempo passou e que aqueles dias, que pareciam eternos, agora vivem apenas no território delicado das lembranças. Era o luto.


Quando um ator morre, o noticiário registra uma perda.Quando ele é um herói da nossa infância, quem registra a perda é o coração.


A internet brasileira se encheu de mensagens, fotos, vídeos e homenagens. Gente de todas as idades, compartilhando a mesma dor. E aquilo me emocionou profundamente. Confesso, chorei em vários momentos, — sim homens também choram. Porque revelou-se uma verdade bonita: Jaspion nunca pertenceu à televisão, ele era da nossa família, morava dentro de nós.


Morava nos quintais onde travávamos batalhas imaginárias. Morava nos pedaços de madeira transformados em espadas. Morava nas bicicletas que viravam naves espaciais. Morava nos sonhos de crianças que acreditavam que a coragem podia mudar o mundo.


Nós crescemos. Vieram os boletos, as responsabilidades, as perdas, as decepções e as cicatrizes inevitáveis da vida adulta. Aprendemos que o mal nem sempre tem rosto de um monstro e que as batalhas mais difíceis costumam acontecer dentro de nós mesmos. Mas, em algum lugar escondido sob as camadas do tempo, aquela criança que assistiu a Jaspion continua existindo.


A partida de Hikaru Kurosaki dói muito. Porque ela nos obriga a encarar uma verdade que invariavelmente evitamos: a infância não volta. Os heróis envelhecem. Os ídolos partem.


Mas há algo que a morte não consegue alcançar. Ela não alcança as tardes em que fomos felizes. Não alcança os sonhos que nasceram diante do exemplo. Não alcançam a coragem que aprendemos observando um guerreiro vindo do outro lado do mundo. Não alcança a criança que ainda mora dentro de cada um de nós.


Hoje, sinto que uma pequena estrela se apagou no céu da minha geração. Mas também sinto que milhões de outras continuam brilhando. São as memórias. São ensinamentos. São os valores que levamos para a vida. Jaspion nos ensinou que a justiça vale a luta, que o bem exige coragem e que nenhuma escuridão é forte o bastante para vencer quem insiste em carregar luz.


Agora é preciso ser um guerreiro e encarar o luto. Não porque perdemos apenas Hikaru Kurosaki. Mas porque, tivemos a sensação de perder um pedaço de nós mesmos.


Eu juro, não vou falhar! Jaspion...






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador


Comentários (0)