Deep Purple – SPLAT!
Pesado, corajoso e otimista! Vale sua audição!
Finalmente à espera acabou. Chegou as plataformas digitais o novo álbum do Deep Purple. SPLAT! não é um álbum sobre o fim. É um álbum sobre como sobreviver ao fim. O título sugere impacto, colisão, queda. Ian Gillan, porém, transforma essa imagem numa metáfora para a própria humanidade: podemos nos espatifar contra nossos erros, nossas guerras, nossos fanatismos e nossa arrogância, mas ainda existe esperança, humor e beleza em meio aos escombros.
Produzido novamente por Bob Ezrin, o 24º álbum de estúdio da banda apresenta um Deep Purple mais pesado, direto, bebendo nas suas fontes mais puras, mas sem soar nostálgico. Não há excessos instrumentais nem longas viagens progressivas. São treze canções compactas, mas cheias de personalidade, nas quais Simon McBride consolida definitivamente seu lugar na linhagem dos grandes guitarristas que passaram pelo grupo. SPLAT! é um manifesto de vitalidade.
Vamos ao Faixa à Faixa...
Arrogant Boy
O álbum abre sem pedir licença. "Arrogant Boy" é uma locomotiva hard rock que evoca a urgência de "Highway Star", mas com a maturidade de quem já viu impérios ruírem e modas passarem. A letra apresenta Billy, um jovem rebelde sem privilégios que usa a palavra para desafiar a elite. Já me ganhou de primeira. Musicalmente, Simon McBride ataca como se precisasse provar algo a alguém — embora já não precise. O riff é instantaneamente clássico.
Diablo
Se existe espaço para a loucura criativa, ela mora aqui. "Diablo" é teatral, quase cinematográfica. Gillan constrói uma narrativa surreal sobre riscos, travessias, sobrevivência e sair da zona de conforto. Segundo o vocalista Ian Gillan, a letra é um convite para que as pessoas vivam experiências empolgantes pelo menos uma vez na vida, em vez de sempre seguirem pelo caminho seguro ou pela "estrada principal".
The Rider
“The Rider" é uma faixa mais introspectiva sem deixar de ser divertida, abordando com humor as exigências absurdas e os caprichos de artistas e estrelas. A letra é uma ironia sobre a extravagância. Um trabalho excelente de Ian Paice e Roger Glover na sustentação, auxiliando o brilho do Hammond de Don Airey para um dos melhores solos de Simon McBride na banda.
The Lunatic
Aqui, o Deep Purple brinca com a linha tênue entre genialidade e loucura. A letra aborda a figura de um personagem misterioso e, à sua maneira, "perigoso", que age de forma independente, tem poucos amigos e foge dos padrões sociais — um solitário que desperta desconfiança, mas também atrai a atenção da lei. A faixa parece dialogar com todos aqueles artistas, sonhadores e outsiders que foram chamados de insanos simplesmente por recusarem a mediocridade. Don Airey rouba a cena com teclados exuberantes, enquanto Paice e Glover sustentam tudo com a elegância de quem transformou química musical em linguagem própria. Uma das melhores faixas do álbum.
The Only Horse in Town
Uma das letras mais intrigantes do disco. Gillan utiliza a figura do único cavalo da cidade como metáfora para isolamento, individualismo e sobrevivência num mundo cada vez mais competitivo e hostil. Há um humor ácido, típico de Gillan, mas também uma profunda compaixão pelas pessoas solitárias. É blues, é hard rock e é literatura popular ao mesmo tempo. Musicalmente a faixa flerta um pouco o período dos anos 80 na banda.
Sacred Land
Talvez a composição mais épica do álbum. Conta sobre uma saga de rivalidades e de busca pela paz, quando inimigos deixam de lado suas espadas para proteger uma Terra Sagrada. Aos meus ouvidos a música tem algo de “Stargazer” e essa rivalidade talvez seja entre os próprios membros clássicos da banda, como Blackmore e Gillan, por exemplo. É uma canção curta, deveria ter sido melhor explorada para ideias que me parecem ter muito sentido.
The Beating of Wings
O coração poético de SPLAT! Refletindo sobre a vida após a morte e o fim da humanidade, não como algo sombrio, mas como uma transformação. A letra é reflexiva, fazendo a banda conter o peso do álbum por um momento de delicadeza. É uma das interpretações vocais mais emocionantes de Gillan em muitos anos.
Guilt Trippin'
Brilhante e a melhor faixa do álbum. A premissa é digna do melhor de Ian Gillan: Deus e Charles Darwin encontram-se num bar para discutir o fracasso da humanidade. Filosofia, humor e crítica social transformam a música numa obra-prima de irreverência inteligente. É Deep Purple fazendo aquilo que sempre fez de melhor: questionar o mundo sem perder a capacidade de rir dele. Ponto alto da canção são as camadas que começam progressivamente até se transformar em um Hard Rock poderoso com direito a vocais agudos de Ian Gillan, algo que não aparecia há muito tempo nas composições do grupo.
Scriblin' Gib'rish
O homem moderno contra a burocracia digital. Gillan transforma senhas, códigos, autenticações e o caos tecnológico em poesia sarcástica. A letra expressa o cansaço diante de uma sociedade cada vez mais dependente de sistemas incompreensíveis e desumanizados. Pesada, direta e precisa musicalmente e liricamente, pois não soa artificial em sua mensagem. Um das melhores canções do álbum.
Jessica's Bra
A faixa mais controversa do disco. O título provocou interpretações equivocadas, mas trata-se, na verdade, de um erro tipográfico envolvendo "Jessica's Bar". A canção é crônica musical bem-humorada sobre os clientes excêntricos que frequentam o local, servindo como um refúgio para escapar das tensões e desventuras da vida cotidiana. Destaco o riff e solo de Simon McBride que mais uma vez rouba a cena.
Third Call
A letra tem um tom curioso e intimista, focando em um telefonema inesperado: a narrativa gira em torno de uma ligação que a pessoa inicialmente hesita em atender, mas que acaba aceitando receber, levando-o a reviver sensações e lembranças sobre a pessoa do outro lado da linha. Um legítimo hard rock da banda. Don Airey faz um excelente trabalho com as teclas aqui.
My New Movie
Gillan brinca com a ideia de que todos somos roteiristas da própria existência. A letra fala da necessidade de continuar escrevendo novos capítulos mesmo quando o mundo espera que você apenas repita mais do mesmo. É impossível não enxergar ali uma metáfora para a própria trajetória da banda. A velhice, afinal, não precisa ser um remake.
Splat!
A faixa-título encerra tudo com ironia e energia. Se o disco inteiro gira em torno da possibilidade de colapso da civilização, a conclusão é surpreendentemente otimista. O impacto do "splat" não representa apenas destruição; representa transformação, reinício e renascimento. O groove irresistível da música funciona como um último recado: enquanto houver criatividade, amizade e vontade de tocar, o rock permanece vivo.

- Um Disco Pesado -
Talvez o maior mérito de SPLAT! seja sua honestidade. Ian Gillan não tenta cantar como em 1972. Ian Paice não precisa provar que ainda é um dos maiores bateristas do planeta. Roger Glover continua sendo a alma silenciosa da banda. Don Airey mantém vivo o espírito de Jon Lord, e Simon McBride injeta sangue novo sem desrespeitar a história da banda, ele tem o molho pra fazer o Deep Purple continuar existindo e resistindo.
Temos em SPLAT!, um álbum profundo e talvez dificil de ser consumido por uma geração obcecada pela juventude eterna, pela novidade instantânea e pelo descarte permanente. O Deep Purple responde a tudo isso com treze canções que afirmam o contrário: experiência também pode ser revolucionária.
SPLAT! não é apenas um dos melhores discos da fase recente da banda. É a prova definitiva de que algumas lendas não sobrevivem porque pertencem ao passado. Sobrevivem porque continuam tendo algo importante a dizer. E pelo que ouvimos o Deep Purple ainda tem muito a dizer.
Jeff Soares

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